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#Romances#Literatura Brasileira

O triste fim de Policarpo Quaresma

Por Lima Barreto (1915)

À direita, havia a Saúde, a Gamboa, os navios de comércio: galeras de três mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos à vela - que iam saindo da bruma, e, por instantes, aquilo tudo tinha um ar de paisagem holandesa; à esquerda, era o saco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Órgãos azuis, altos de tocar no céu; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depósitos de carvão; e, alongando a vista pelo mar sossegado, Niterói, cujas montanhas acabavam de recortar-se no céu azul, à luz daquela manhã atrasada.

A neblina foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse à terra; era uma aleluia. Aqueles chiados, aqueles apitos, os guinchos tinham um acento festivo de contentamento.

Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções.

- Mais duas? fez admirado o major.

- Sim, senhor. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista.

- Faça a parte.

Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quase nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as cousas como iam.

Uma madrugada, ele não estava. A treva ainda era profunda. O soldado de vigia viu lá ao longe um vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as águas do mar. Não trazia luz alguma: só o movimento daquela mancha escura revelava uma embarcação, e também a ligeira fosforescência das águas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento pôs-se a postos e Quaresma apareceu. - O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante. E em seguida, nervoso, recomendou:

- Esperem um pouco.

Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas. Demorou-se e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.

Quaresma reapareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar:

- Viram bem... a distância... a alça... o ângulo... É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo.

Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:

- Ora, major, você pensa que está em um polígono, fazendo estudos práticos... Fogo para diante! E assim era. Quase todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas.

Lá vinha uma ocasião, porém, que acertavam, então os jornais noticiavam: “Ontem, o forte Acadêmico fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, meteu uma bala no ‘Guanabara’.” No dia seguinte, o mesmo jornal retificava, a pedido da bateria do cais Pharoux, que era a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida, quando aparecia uma carta de Niterói, reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.

O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma trincheira de fardo de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos de palha, como as goelas de um animal feroz oculto entre ervas.

Olhava o horizonte, depois de exame atento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:

Prometo pelo Santíssimo Sacramento...

Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo quadro: à sombra de uma grande árvore, os soldados deitados ou sentados em círculo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que entoava endechas magoadas.

As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial.

- Que é isto? disse ele severamente.

Os soldados levantaram-se todos, em continência; e Ricardo, com a mão direita no gorro, perfilado, e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão, desculpou-se:

- “Seu” tenente, foi o major quem permitiu. Vossa Senhoria sabe que se nós não tivéssemos ordem, não iríamos brincar.

- Bem. Não quero mais isto, disse o oficial.

- Mas, objetou Ricardo, o Senhor Major Quaresma...

- Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!

Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do major do “Cruzeiro do Sul”. Quaresma continuava no seu estudo, um rolar de Sísifo, mas voluntário, para a grandeza da pátria. Fontes foi entrando e dizendo:

- Que é isto, “Seu” Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento?

O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. Ele repetiu:

- Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço? - Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...

- E a disciplina? E o respeito?

- Bem, vou proibir, disse Quaresma.

- Não é preciso. Já proibi.

Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:

- Fez bem.

(continua...)

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