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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

— Ela talvez não queira...

— Qual o quê! Pois uma menina daquelas, criada a obedecer aos pais, sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com a família; que de dentro empurre o negócio e verá se consegue ou não! Eu, por exemplo!

— Ah! se você se metesse nisso, que dúvida! Dizem que o Miranda só faz o que você quer...

— Dizem com razão.

— E você está resolvido a... ?

— A protegê-lo?... Sim, decerto: neste mundo estamos nós para servir uns aos outros!... apenas, como não sou rico...

— Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negócio e não se arrependerá...

— Conforme, conforme...

— Creio que não me supõe um velhaco!...

— Pelo amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilégio!

— Então!...

— Sim, sim... em todo o caso falaremos depois, com mais vagar... Não é sangria desatada!

E desde então, com efeito, sempre que os dois se pilhavam a sós discutiam o seu plano de ataque à filha do Miranda. Botelho queria vinte contos de réis, e com papel passado a prazo de casamento; o outro oferecia dez.

— Bom! então não temos nada feito... resumiu o velho. Trate você do negócio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte comigo absolutamente...

Compreende?

— Quer dizer que me fará guerra...

— Valha-me Deus, criatura! não faço guerra a ninguém! guerra está você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da bela fatia que lhe vou meter no papo!... O Miranda hoje tem para mais de mil contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim também tão fácil, como lhe parece talvez...

— Paciência!

— O Barão há de sonhar com um genro de certa ordem!... Ai algum deputado... algum homem que faça figura na política aqui da terra!

— Não! melhor seria um príncipe!...

— E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa família; que lhe ronda muito a porta... E ela, ao que parece, não lhe faz má cara...

— Ah! nesse caso é deixá-los lá arranjar a vida!

— É melhor, é! Creio até que com ele será mais fácil qualquer transação...

— Então não falemos mais nisso! Está acabado! — Pois não falemos!

Mas no dia seguinte voltaram à questão:

— Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze!

— Vinte!

— Vinte, não!

— Por menos não me serve!

— E eu vinte não dou!

— Nem ninguém o obriga... Adeuzinho! — Até mais ver.

Quando se encontraram de novo, João Romão riu-se para o outro, sem dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não quer intrometer-se com o que não é da sua conta.

— Você é o diabo!... faceteou aquele, dando-lhe no ombro uma palmada amigável. Então não há meio de chegarmos a um acordo?...

— Vinte!

— E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...?

— Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do Barão um chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; aceita o convite, vai, e encontrará o terreno preparado.

— Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro vinténs!

O Botelho não faltou ao prometido: dias depois do contrato selado e assinado, João Romão recebeu uma carta do vizinho, solicitando-lhe a fineza de ir jantar com ele mais a família;

Ah! que revolução não se feriu no espírito do vendeiro! passou dias a estudar aquela visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando sozinho defronte do espelho do seu lavatório; afinal, no dia marcado, banhou-se em varias águas, areou os dentes até fazê-los bem limpos, perfumou-se todo dos pés à cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou e bruniu as unhas, vestiu-se de roupa nova em folha, e às quatro e meia da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e pretensioso salão de Sua Excelência.

Aos primeiros passos que dera sobre o tapete, onde seus grandes pés, afeitos por toda vida à independência do chinelo e do tamanco, se destacavam como um par de tartarugas, sentiu logo o suor dos grandes apuros inundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer naquele instante uma légua de carreira ao sol. As suas mãos vermelhas e redondas gotejavam, e ele não sabia o que fazer delas, depois que o Barão, muito solicito, lhe tomou o chapéu e o guarda-chuva.

Arrependia-se já de ter lá ido.

— Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor venha antes aqui para a janela. Não faça cerimônia! Ó Leonor! traz o vermute! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja?

(continua...)

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