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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Meu Deus! onde começa o sonho?... onde termina a realidade?... Alzira teria com efeito vindo buscar-me no dia seguinte ao seu enterro?... (Ozéas redobrou de atenção). Eu ter-me-ia transformado em um cavalheiro e ela em formosa dama? Teríamos saído por aí afora, montados em fogosos cavalos, que nos levaram a mundos desconhecidos para mim?... Teria eu percorrido com ela todas essas paragens maravilhosas?... Teria eu provado de todos os venenos do prazer e bebido de todos os vinhos do amor?...

Ozéas apoderou-se do braço de Ângelo.

— E ela continua a voltar?... exclamou, sobressaltado.

— Sim, sim, volta sempre! Ainda não faltou uma só noite até hoje! Mal adormeço, ela vem logo e carrega comigo! É ela a pessoa com quem eu mais convivo neste mundo.

— Neste, não! no mundo da tua loucura!

— E por que acreditar que este é o verdadeiro e o outro não?!... Ambos me ocupam longas horas o espírito, ambos palpitam de sentimento e de verdade, ambos tem as suas consolações e os seus desgostos!

— Mas, meu filho, não te lembras que cresceste a meu lado, que viveste sempre comigo?...

— Também no outro mundo tenho reminiscências de uma vida inteira. Lembro-me do colégio, das férias passadas com parentes, dos afagos de meus pais... sim! porque lá não sou um miserável enjeitado... tenho família e tenho amigos... E' uma vida completa e perfeita! Esta outra existência obscura, de pároco de aldeia, apresenta-se-me então ao espírito como um sonho extravagante e ridículo!...

— É preciso que Alzira nunca mais te apareça! bradou o velho.

— Ah! disse Ângelo. Creio que só com a morte deixarei de vê-la!... E, ainda assim, quem sabe?... Quem sabe se Alzira não virá ter comigo, quando esse outro sono me adormecer para sempre?... E quem poderá afirmar que eu vivo?... quem me dirá que não sou, como ela, um pobre espírito errante, um espectro, uma sombra, condenado a nunca repousar?...

— Cala-te, louco! Não a verás hoje!

— Ela virá logo que eu adormeça!...

— Hoje não dormirás!

— Ela me espera!...

— Desgraçado! Já não és senhor de tua vontade?... Acaso negociaste tua alma?...

— Não, meu pai, minha vontade é a sua... minha alma pertence a quem ma confiou, pertence a Deus!

— Pois então, obedece-me! Põe o teu capote e o teu chapéu, toma um alvião e uma enxada, e acompanha-me!

— Aonde vamos?

— Depois o saberás. Ajoelha-te e pede ao Criador que te proteja!

O discípulo obedeceu.

E o velho acrescentou, erguendo os braços e os olhos para o céu:

— Ó meu Deus! Ó senhor misericordioso! não nos desampareis nesta terrível excursão que vamos empreender! ...

CAPÍTULO XIV

Cruz e calvário

Ozéas muniu-se de uma lanterna furta-luz e fez-se acompanhar por Ângelo, que levava o alvião e a enxada.

Saíram.

A noite era bonita e frouxamente iluminada por um luar de abril. A aldeia dormia já, e apenas algumas árvores rumorejavam, sonhando talvez, ainda tontas da quente carícia do último sol que as sufocara com os seus beijos de fogo.

Cães ladravam, de pescoço estendido, provocando o céu. As estrelas bruxuleavam tristemente no azul da abóbada misteriosa. Não se ouvia o pio de uma ave noturna.

E os dois religiosos lá se iam pela estrada, silenciosamente, projetando longas sombras na areia dos caminhos.

Pareciam dois espectros filhos da mesma noite.

Andaram durante algumas horas. Atravessaram a aldeia, sem dizer palavra. E afinal chegaram a um cemitério, que já não pertencia a Monteli e sim a Blancs-Manteaux.

— É aqui, meu filho... disse o velho, parando, extenuado de fadiga.

Ângelo nada respondeu. Encostou-se ao sinistro moro da casa dos mortos e respirou descansando.

— O que viemos aqui fazer... perguntou depois.

— Entremos... deliberou o outro, procurando o lado mais baixo do muro para galgá-lo.

E penetraram no cemitério.

Era um bem triste lugar aquele, com a sua dura simetria de túmulos enfileirados, branquejando ao luar. Canteiros de flores, mais fúnebres que as sepulturas, pareciam dizer na muda linguagem das perpétuas e das margaridas, todo o segredo das dores e das saudades, que ali gemeram junto aos que fugiram para debaixo da terra.

Mas agora, nem o eco de um soluço, nem a cintilação de uma lágrima!...

Mudo esquecimento e paz absoluta! A lágrima nasceu líquida para secar depressa, e o soluço não tem asas para acompanhar a memória dos que morrem!

Ozéas e Ângelo puseram-se a andar vagarosamente por entre os mausoléus, até chegarem ao campo raso dos mortos anônimos, para os quais só há uma cruz de ferro, com um simples número, fria como o coração do coveiro que os sepultou.

O cemitério era grande, mas de aspecto miserável. Um vasto campo, que se estendia, subindo em rampa, até parar de súbito num formidável despenhadeiro, onde nunca descia a luz do sol nem das estrelas.

O frade, ao chegar a certo sepulcro, coberto por uma lousa de mármore, deu luz à sua lanterna, e alumiou a lápide.

— Lê!... disse ao companheiro.

(continua...)

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