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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Assim levaram algum tempo. Todavia, a desgraçada não podia resistir por muito mais: o suor corrialhe de todo o corpo; as pernas vergavam­se­lhe de cansaço; a vertiginosa gravitação em torno da mesa fazia­lhe redemoinhar a cabeça num delírio apoplético. Sentia ânsias enormes, e ofegante, trêmula, miserável, toda ferida nos cacos de vidro espalhados pelo chão, ia lançar­se suplicante e vencida aos pés do doido, quando se abriu de repente uma das portas da sala, e Gaspar, junto com Gabriel, apareceram de relance.

— Olá! He! gritou o médico.

Leonardo voltou­se para eles, e Ambrosina teve ensejo de galgar a entrada da dispensa.

Já era tempo!

Os dois, vendo­a livre do perigo, tornaram a fechar logo a porta, com intenção de deixar o doido preso. Só então o Médico Misterioso reparou que os convidados haviam todos desaparecido, e, como para ele se tratava unicamente de fugir com o enteado, a este arrastou consigo pelo jardim e levou­o para o carro que o esperava ao portão da chácara.

Toca pra casa! disse ao cocheiro.

Gabriel, pelo caminho, protestava na impotência do seu estado:

— Mas, repara, Gaspar, que Ambrosina pode morrer na situação em que a deixamos... E um assassinato o que vamos cometer!...

— A dispensa não tem saída?

— Tem uma janela, mas a desgraçada talvez não chegue até lá!... Eu já não a amo e nenhum interesse tenho de possuí­1a mas é de meu dever não consentir que ela morra em minha casa!

— Jorge, apeia­te; dá­me o teu capote, o teu chapéu, e o teu chicote.

— É.

O cocheiro obedeceu, e Gaspar, aproximando mais a boca ao ouvido dele, acrescentou ainda algumas palavras.

— É só o que manda, patrão? perguntou Jorge depois de ouvir o que lhe segredara o médico.

— Sim, mas desejo que te saias desta vez tão bem como das outras...

— Podes ficar descansado.

— Estás armado?

— Sim senhor, e tenho a minha lanterna.

— Então, vai.

E o cocheiro tornou a pé pelo caminho feito.

Gaspar atirou o capote nos ombros, enterrou o chapéu na cabeça, empunhou o chicote e galgou a boléia.

O carro desapareceu na estrada.

Deixemo­lo seguir para a casa do Médico Misterioso, e voltemos à sala de jantar de Gabriel.

Ambrosina, mal ganhou a dispensa, atravancou precipitadamente a porta e deixou­se cair prostrada no chão. Só depois de vomitar duas ou três vezes, é que de novo se viu senhora completa dos seus movimentos e do seu espírito.

A primeira idéia que então lhe acudiu foi a de fugir para a rua; não tinha confiança naquele abrigo. Trepou logo pelas prateleiras, e ganhou a pequena janela, que dava sobre o jardim.

A noite estava silenciosa e um tanto úmida. Ambrosina só ouvia o rumor produzido pelo marido na sala de jantar.

— Com certeza ele não sairá de lá, enquanto houver ao seu alcance um objeto inteiro... pensou, montando­se no parapeito da janela; depois, dependurou­se deste pelas mãos e deixou­se escorregar para fora.

Caiu assentada na relva, e só então reparou no deplorável estado em que se achava.

E foi suja, rota, ensangüentada, sem chapéu, que atravessou a chácara.

Ao passar pela frente da casa, pareceu­lhe ouvir gritos pedindo socorro.

Querem ver que ainda há alguém lá dentro às voltas com o doido?... considerou ela.

— Ora, adeus! disse de si para si; quem quer que seja, que se arranje, como eu me arranjei!

E seguiu para a rua.

O bairro estava deserto. Ambrosina não tinha dinheiro consigo e nem mesmo sabia para onde ir. A casa de sua mãe era tão longe!... ficava no Engenho Novo, e ela achava­se ali em Laranjeiras!...

Além disso, sentia­se fatigadíssima; os pés ardiam­lhe, como se fossem calçados de sinapismos. E tão enxovalhada! Onde diabo iria ela abrigar­se! a quem se apresentaria naquele estado!

E coxeando, gemendo, a encostar­se pelas paredes, seguia tristemente para o lado da cidade.

Veremos depois o destino que teve a desgraçada.

Por enquanto, voltemos ainda uma vez à sala de jantar de Gabriel, porque, com efeito, alguém lá ficou abandonado em apuros.

Era o pobre do Alfredo; eram dele os gritos que pediam socorro.

Na terrível ocasião em que surgira Leonardo, o magro amante de Genoveva, aproveitando a exigüidade do seu corpo, conseguiu meter­se entre o guarda­louça e a parede, no canto de que falamos, certo de que ninguém daria com ele semelhante esconderijo.

Havia de ser, realmente, muito difícil em descobri­lo, aí; mas o louco, quando Ambrosina se encerrou na dispensa e Gaspar fechou de novo a porta da sala, foi surpreendido por certo ruído inominável que partia do canto do guarda­louça. Precipitou­se para lá e, aguçando os olhos, lobrigou ao fundo da toca a lívida figura de Alfredo, cujos queixos batiam como castanholas.

O louco soltou um rugido dos seus, acompanhado de uma feroz gargalhada de satisfação, e desistiu do intento de perseguir à mulher, para se atirar sobre a nova presa.

(continua...)

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