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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A igreja é simples e seus altares ornados de trabalhos de talha de um estilo pesado. A Capela-Mor mostra-se enriquecida com dezenove painéis da vida de S. Antônio, representando seus belos feitos e mila gres por sua intervenção operados. O coro é espaçoso; em frente, aparece o órgão, que é um dos melhores que existem no Rio de Janeiro. Olhando para o fundo do coro, o órgão apresenta um espaldar com um crucifixo que tem aos lados as imagens de Nossa Senhora e de S. João. Por detrás do órgão, levanta-se uma estante coral de jacarandá, que é de uma execução severa. Aos lados seguem-se as estantes e cadeiras ou assentos também de jacarandá, e preparados de modo que oferecem todos os cômodos possíveis e imagináveis, como era de esperar em uma obra meditada e realizada por frades, que são os homens comodistas por excelência.

A igreja tem três altares: o do lado do Evangelho consagrado a Nossa Senhora da Conceição, o do lado da Epístola ao patriarca dos franciscanos, e o Altar-Mor a S. Antônio.

Não posso ir adiante sem recordar uma tradição que se refere àquela imagem de S. Antônio, e sem lembrar-vos as honras e os despachos que esse milagroso santo mereceu outrora do governo.

Começo pela tradição.

Aquela imagem de S. Antônio é obra de um dos frades da ordem. Trabalhava nela esse religioso com fervor e devoção, e tinha-se saído bem na disposição e execução de todo o corpo da imagem. Chegando, porém, à cabeça, não pôde ajustar ao corpo uma só das muitas que teve de ir fazendo, porque, apesar de todo o seu cuidado e empenho, umas cabeças excediam e as outras não chegavam à medida.

Se a imagem continuava sem cabeça, o frade perdia a própria, porque não podia explicar o motivo da sua súbita e desastrada imperícia.

Os frades estavam em movimento: não havia cela em que não se discorresse sobre a inexplicável infelicidade do artista religioso.

Mas, uma noite, e já bem tarde, soa inesperadamente a campainha da portaria. Todos os frades achavam-se no mosteiro. Podia, porém, aquele sinal ser um chamado de socorro para algum triste moribundo.

Corre-se à portaria, abre-se a porta e ninguém se apresenta. Olha-se em torno e não se vê pessoa alguma. Mas, quem o pensaria?

Encontra-se depositada no chão uma cabeça de S. Antônio!

Indaga-se, procura-se pelas circunvizinhanças o portador do singular e precioso presente, e não se acham nem vestígios de alguém que tivesse vindo ao convento.

A notícia do extraordinário caso espalha-se logo pelo mosteiro. Acodem todos os frades à portaria. A cabeça do santo é levada ao corpo da imagem, que já estava pronto, serve perfeitamente, e como se de propósito, tivesse sido feita para ele.

Mas de quem e donde viera a cabeça do santo? Nunca se pôde resolver este problema, e as antigas tradições fazem supor que os franciscanos a consideraram obra sobrenatural, executada por mãos sobrenaturais.

Tal é a tradição que existe a respeito da cabeça da imagem de S. Antônio, que se venera no Altar-Mor da igreja do convento dos capuchos do Rio de Janeiro.

Agora as honras e despachos do governo.

O S. Antônio do convento dos franciscanos do Rio de Janeiro tinha praça e soldo de simples soldado de infanteria. Nem ao menos era cadete, o que indica que a sua estirpe não brilhava pela nobreza, e por conseguinte, valia menos aquele bom santo português do que qualquer fidalgote emproado.

Era um santo sans culotte, como diriam em França os revolucionários depois de 1789. Era um santo jurujuba, como se diria no Rio de Janeiro em 1831. Era um santo popular, enfim, e está visto que, por ser popular, não mereceu menos aos olhos de Deus.

Esta consideração deve ser um pouco desagradável aos fidalgos. Mas tenham eles paciência. Contentem-se com o domínio da terra, domínio que às vezes partilham com o Diabo, que também é fidalgo. O véu pertence exclusivamente à virtude, quer tenha sangue azul, quer não.

E S. Antônio ficou soldado raso até o ano de 1710, em que um perigo iminente que ameaçou a colônia portuguesa no Rio de Janeiro, e a necessidade do seu potente auxílio o fizeram dar um salto de soldado a capitão de infanteria do primeiro regimento da cidade, regimento chamado – velho. O santo querido das moças ficou assim – capitão velho.

Era o caso do ataque dos franceses comandados por Du Clerc contra a cidade do Rio de Janeiro. O Governador Francisco de Castro e Morais, que tinha as melhores razões para não confiar em si mesmo, agarrou-se com S. Antônio e deu-lhe a patente de capitão.

O santo não entrou no combate; mas, como prudente general, presidiu à ação de cima do seu monte, pois que a sua imagem foi colocada sobre a muralha do convento. Os franceses foram batidos e ficaram prisioneiros, e S. Antônio, recolhido à sua igreja, caiu outra vez no esquecimento, viu-se preterido pelos oficiais e soldados de duas gerações, e somente um século e quatro anos depois, aos 26 de julho de 1814, subiu ao posto de tenente-coronel, sendo aos 13 de agosto do mesmo ano condecorado com a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo.

S. Antônio gastou, portanto, dois séculos, pouco mais ou menos, para chegar a tenente-coronel e grão-mestre da Ordem de Cristo no Brasil. Há pecadores obstinados muito mais felizes, que da noite para o dia se vêem elevados a grandezas muito mais subidas na Terra, e sem poderem dizer como nem por quê.

(continua...)

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