Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Juliano não respondeu, antes procurou afastarse do apaixonado mancebo, que a reteve junto de si, segurando-a pela mão que continuava a beijar, e abraçando-a docemente pela cintura, que o braço atrevido não abandonou mais.
O canto ouvio-se ainda:
A lua é discreta e nobre,
E da noite o manto cobre
Beijo roubado ao pudor ;
As flores o beijo ouvirão,
As auras d'elle sorrirão,
Mas ganhou um beijo amor.
O canto cessou, e ao mesmo tempo Jorge do Almeida abraçou ainda mais ternamente Juliana, e ousou depor nos labios da donzellaum beijo ardente e voluptuoso.
XXI.
Erão onze horas da manhã.
Juliana estava pallida e melancolica; esforçava-se por encobrir a tristeza que a abatia, mostrava-se por momentos alegre e satisfeita ; mas logo depois cahia em nova e sombria meditação.
Cândida sentada em frente de sua filha observava-a cuidadosa.
Ao meio-dia, recebeu Juliana um bilhete em que Jorge de Almeida lhe repetia os seus juramentos de amor e de constancia.
O bilhete dissipou em parte a melancolia de Juliana.
Cândida retirou-se mais socegada, vendo a filha dirigir-se serena e quasi contente para a sala e dalli sentar-se ao piano.
Mas Juliana tocou apenas durante alguns minutos,porque de súbito seus dedos ficarão immoveis sobre o teclado, e seus olhos afogárão-se em pranto.
Logo depois ouvirão-se os passos de alguém que subia a escada.
Juliana enxugou as lagrimas, e, enfeitando o rosto com um mentiroso sorriso de alegria levantou-se para receber a pessoa qui ia chegar.
Fábio entrou na sala.
— Como vem risonho hoje! disse-lhe Juliana.
— Sim, Juliana, respondeu o mancebo; venho contente e feliz, porque achei um meio seguro para salvar-te do perigo que estavas correndo, — Salvar-me!... exclamou a moça aterrada.
— Eu não me enganei, continuou Fábio; Jorge de Almeida procurava seduzir-te.
— Seduzir-me !
— Juliana, vai buscar as cartas que esse miseravel te entregou, dizendo que erão escriptas por seu pai.
— As cartas ?.,. e para que ?...
— Para demonstrar-te que são falsas.
A moça correu como louca para dentro, e em breve voltou, trazendo as cartas.
Fábio examinou a lettra e repetio com segurança :
— São falsas.
— Oh! é impossível!... bradou a infeliz moça.
Fábio tirou do bolso algumas cartas que trazia, e mostrando as a Juliana, continuou;
— Estas sim são do pai de Jorge ; eu as obtive de um negociante que foi correspondente delle, e que deixou de o ser, aborrecido das exigencias e das indignidades desse mancebo.
Juliana, comparando as cartas, reconheceu á primeira vista a mais completa differença da lettra.
— E não é só isso, Juliana; ha mais alguma cousa.
— Que mais?... que mais'?... perguntou a moça, torcendo com força as suas mãos delicadas.
— Jorge de Almeida, proseguio Fábio, deve dentro de dous mezes casar-se com a filha de um rico capitalista desta cidade, e logo depois partir com a sua noiva para a Europa.
— Fábio! Fábio ! bradou Juliana com desespero ; dize-me que estás mentindo !...
— Não, respondeu Fábio ; não menti; affirmote que é exacto tudo quanto acabaste de ouvir.
A moça ajoelhou-se aos pés de Fábio, levantou para elle mãos supplicantes, e disse chorando :
— Oh!... assegura-me que mentiste!... é indispensavel que tenhas mentido, Fábio!...
essas cartas que me apresentaste não são verdadeiras ; este casamento de que me fallas é uma falsidade.... Oh!.... dize-me que estás mentindo, Fábio!...
— Juliana, eu juro pela minha honra e pela salvação das almas de meu pai e de minha mãi, que te disse a verdade e somente a verdade.
A misera jovem fitou um olhar desvairado no rosto de Fábio.
— E agradeço a Deus, continuou o mancebo, agradeço a Deus o ter-me concedido a gloria de descobrir tudo isso ainda a tempo de salvar-te.
— É tarde ! murmurou Juliana, mas em voz tão baixa que Fábio não poude ouvil-a; é tarde ! agora é muito tarde ! E cahio desmaiada.
XXII.
Juliana estava arrastando longos dias e tormentosas noites de arrependimento e de remorso.
Toda a esperança de felicidade e de futuro se apagara de uma vez para sempre no coração da infeliz moça.
As lagrimas que ella chorava escondida começavão a abrir um sulco em suas faces mimosas e bellas.
Seus labios não sorrião mais senão com um fingimento que a ninguém illudia.
Juliana sentia que era desgraçada, e que a sua desgraça era irremediavel.
Fábio tinha-lhe dito a verdade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.