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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Quer, mas como tem querido a outras antes de mim: não mereço ser sua mulher! 

Partiu-se Jão a galope e foi ter em casa com o patrão: 

- Nhô Luís, ela lhe quer bem!... case com ela! 

- Qual, Jão!... O velho não admite! 

  Não quis ouvir mais o Bugre; arrecadou em um lenço o que tinha de seu, tão pouco era, e despediu-se do patrão com estas palavras: 

- Pode procurar outro camarada; eu não conto mais com o senhor. 

Foram baldados os esforços que fez Luís Galvão para retê-lo. O Bugre ficou inabalável na resolução que tomara em um minuto, de deixar a casa onde fora acolhido e vivera desde a infância. 

  Pouco tempo depois efetuou-se o casamento de Besita com o Ribeiro; mas este ao sair da igreja recebeu uma carta, que o chamava a toda a pressa para Itu para salvar a maior parte da herança, que o tio confiara a um negociante daquela vila, hoje cidade.  

Partiu o Ribeiro no dia seguinte para voltar logo. Sua mulher foi viver na casa da fazendola, que o trouxera a Santa Bárbara, na intenção de vende-la; e agora devia servirlhe de morada ao menos nos primeiros tempos do casamento. 

 

III 

Bebê 

 

  Tinham decorrido dois meses depois do casamento de Besita. 

  Eram nove horas da noite. A moça beijando a mão do pai, se recolhera à alcova; e depois de rezar, cismava em sua vida, lembrando-se com saudade dos sonhos de ventura que fizera outrora e que tão depressa se tinham desvanecido. 

  Encostada à rótula da janela, com os olhos engolfados no azul, bebendo a cintilação das estrelas como um orvalho de luz, sentia-se arrastada para aquele passado recente, e deleitava-se com as reminiscências das carícias de Luís e dos seus ternos protestos, que ela sabia mentidos, mas que não obstante a embeveciam.  

Já todos dormiam na casa, quando ela, deixando a janela, deitou-se. Nesse instante ouviu sobressaltada bater à porta. Quem seria, àquela hora? 

  Soaram os passos de Zana no corredor e logo depois a voz da preta a trocar perguntas e respostas com a pessoa que batia. Afinal rangeu a chave na fechadura.  

- Nhazinha, é sinhô! 

  Ia Besita levantar-se precipitadamente para receber o marido, quando sentiu no escuro que dois braços a cingiam e uma carícia atalhava-lhe a palavra nos lábios.  

Ao bruxulear da madrugada, Zana acudindo ao chamado da moça foi achá-la debulhada em pranto, na maior consternação. 

- Tu me perdeste, Zana! Não era meu marido! 

- Quem era então, Nhazinha? perguntou a preta espantada. 

- Olha! disse a moça mostrando-lhe o vulto de Luís Galvão que se afastava. 

- Meu Jesus do céu! exclamou Zana caindo de joelhos aos pés da senhora.  

Felizmente o velho não ouvira bater; e nunca soube da desgraça da filha. Morreu meses depois crente de que a deixava no mundo feliz e amparada. 

  Uma pessoa, porém, suspeitou do que havia ocorrido. Foi Jão Bugre, que na sua indignação quis matar Luís Galvão; e o teria feito, se Besita não o proibisse. 

  Entretanto o Ribeiro não dava cópia de si; corriam os meses sem que em Santa Bárbara houvesse novas dele, e do rumo que levara. Somente sabia-se que não estava em Itu, ou qualquer outra vila próxima. Esse abandono, que o marido parecia ter feito dela, foi o que deu coragem a Besita para resistir à desgraça que a acabrunhara, sobretudo quando lhe conheceu todo o alcance. 

(continua...)

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