Por José de Alencar (1872)
- Não confunda V. Ex.ª a independência com a barbaria, ou ainda com a misantropia. A sua virtude consiste justamente em manter o caráter no meio das colisões e embates que o abalam. Aí está a dignidade do homem, lutar e vencer; isolar-se do mundo, parece mais covardia.
- Devaneios, replicou Nogueira com desdém. Isso que chama dignidade, meu colega, é nada menos que um crime e grave; vale tanto como uma insurreição, ou uma revolta. Todos a condenam; ninguém perdoa. Se o caluniarem, aparecerá um poder chamado moderador, que fará presente de sua honra ao pasquineiro; mas para o insulto que o senhor fizer a uma cidade corrompida, afrontando-a com os seus brios, para esse delito de lesa-sociedade não há graça; ao contrário, toda a severidade amassada nas altas regiões desfechará sobre o réu convicto do pundonor e integridade!
- Neste ponto não duvido que tenha razão. Como Circe que transformava os seus amantes em barrões, a política namora os mais belos talentos, e nada lhes recusa, contanto que fossem.
- Gosta da fábula? disse o candidato com um leve toque de pedantismo. Pois eu prefiro a história, a grande mestra. A política é em nosso país o mesmo que tem sido em toda a parte, uma cortesã. Quando recebe na alcova...
- No gineceu...
- Na alcova os Péricles e os Sócrates, torna-se Aspásia; mas, se entrega-se aos gladiadores e servos, cai em Messalina
. - Se V. Ex.ª permite uma observação...
- Sem dúvida.
- Não foi Péricles quem fez Aspásia; ao contrário, depois que morreu o grande Ateniense, ela casou-se com uma casta de barão daqueles tempos, um rico marchante, e conseguiu tirar desse lixo de ouro um grande orador.
O Nogueira, que não se deixava derrotar, ainda mesmo nos seus eclipses, acudiu pronto:
- Acredita nisso? É uma galantaria do historiador, se não foi do próprio Lisicles, que para lisonjear a mulher, atribuiulhe o que só devia a seus esforços.
- Acredito, sim; porque não o dizem somente as tradições de Atenas: é a história eterna da humanidade. Por toda a parte a mulher é a alma do homem.
Deixou o candidato cair a conversa um instante para repousar a palavra, e ao mesmo tempo imprimir outra direção ao diálogo.
XXI
Tiradas as últimas fumaças do “regalia”, e metida a ponta do charuto em um talo da palmeira, com o respeito que o verdadeiro fumante vota às cinzas desse companheiro e confidente de mágoas como de prazeres, ergueu-se o candidato, deu alguns passos pelo jardim e voltou para o mancebo que o esperava apoiado ao esteio do caramanchão:
- Uma coisa lhe asseguro, meu colega. Se os moços de talento, que vão começar a sua carreira, ouvissem o conselho de minha experiência, não desbotariam por certo a flor de sua inteligência nesse mister ingrato, de urdir enredos forenses, e desbastar autos, consumindo a mocidade na incessante labutação de borrar o papel e a consciência.
- O que fariam então?
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.