Por José de Alencar (1875)
O capitão-mór falou com ufania, como se as proezas do animal se contassem entre os brasões de sua fidalguia sertaneja. Nisso mostrava bem que era cearense da gema.
— Nem o Louredo, nosso vaqueiro, pai do Arnaldo… Onde está êle?
O fazendeiro voltara-se para procurar com a vista ao rapaz; mas não o encontrou.
— Nem o Louredo, que foi o mais afamado campeador de todo êste sertão, pôde com o Dourado; e não foi por falta de vontade, que uma vez andou-lhe uma semana inteira na pista. Mas também tal mêdo tomou-lhe o boi, que levou um sumiço grande… Há bem quatro anos que não se tinha notícia dele. Não é isso, padre Teles?
— Há de fazer pela páscoa, sr. capitão-mór, respondeu o reverendo.
— Já vejo que o Dourado é um herói, um touro de Maraton, que ainda não encontrou o seu Teseu.
— Todavia não é para comparar-se com o Rabicho da Geralda! observou o Daniel Ferro.
— Temos outro barão assinalado? acudiu o Ourém.
— Dêste, já eu tinha notícia. Há uma antiga de vaqueiros, acudiu João Correia.
— Ainda esta noite os rapazes a cantaram lá no Bargado, tornou Daniel Ferro, que entoou a
primeira quadra da trova.
Eu fui o liso Rabicho
Boi de fama conhecido
Nunca houve neste mundo
Outro boi tão destemido.
Padre Teles, que fôra atalhado na sua crônica do Dourado, aproveitou o ensêjo para introduzir também a sua quadra:
Minha fama era tão grande
Que enchia todo o sertão;
Vinham de longe vaqueiros
P’ra me botarem no chão.
— Já vejo que êste foi uma espécie de Minotauro, pois tinha de homem a fala, observou o Ourém que ria-se daqueles entusiasmos sertanejos.
O capitão-mór ordenou silêncio com um gesto para opor a seguinte contestação:
— O Rabicho da Geralda, sr. Daniel Ferro, foi sem dúvida um corredor de fama. Nós ainda conhecemos o José Lopes, vaqueiro da viúva, que nos contou as proezas de seu boi. Mas nosso parecer é que não chegava ao Dourado.
— Veja o sr. capitão-mór queo Rabicho zombou dos melhores catingueiros de todos êstes sertões, até do Inácio Gomes que ainda hoje tem nome na ribeira do São Francisco.
— Não era nada à vista do Louredo, nosso vaqueiro; pode acreditar, que é a verdade.
— O Rabicho andou onze anos fugido, sem que se tivesse notícia dele; e o Dourado, como o sr. capitão-mór mesmo disse, só há sete anos é que apareceu.
— Onze anos? interrogou o fazendeiro:
— A cantiga diz:
Onze anos eu andei
Pelas caa ingas fugido;
Minha senhora Geralda
Já me tinha por perdido.
O argumento tirado da cantiga, embaraçou o capitão-mór, que voltou-se para o ajudante:
— Que lhe parece, Agrela? O ajudante acudiu pronto.
— É certo, senhor alferes, que o Dourado, como disse muito bem o sr. capitão-mór, só há sete anos apareceu; mas ninguém sabe quantos anos andou sumido pelas serras, sem que se soubesse dele. Ora, sendo um boi ainda novo, como atestam quantos o conhecem, não é muito que viva ainda uns vinte anos e mais.
— Então que diz a isto? perguntou o capitão-mór triunfante com a argumentação de seu ajudante. Vinte anos para onze!…
— Ainda não me rendo, tornou o Daniel Ferro. Se o Dourado pode durar ainda vinte anos, o que não nego, o Rabicho com certeza chegaria aos trinta, se não viesse aquela sêca tão grande. Foi preciso ela para acabar com aquele boi.
O capitão-mór outra vez embaraçado volveu o olhar ao ajudante que não demorou a réplica.
— Aí está a diferença. O Rabicho acabou com a sêca, e o Dourado escapou dela, como escapará de todas as outras por maiores que sejam.
— Está vendo? concluiu o fazendeiro peremptoriamente. Pode jurar em nossa palavra, sr. Daniel Ferro. Nunca houve boi como o Dourado; quem lho diz é o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo; se alguém disser o contrário, mentiu.
Em vista desta afirmação categórica, o Daniel Ferro hesitou na réplica; pois o argumento do sofístico ajudante não o convencera. Mas era teimoso, e em risco de incorrer no desagrado do potentado, ia sustentar a sua opinião, quando felizmente ocorreu uma circunstância, que pôs têrmo ao incidente.
Era tempo. O Agrela previra o efeito que a insistência do Daniel Ferro ia produzir no capitão-mór, cuja vontade imperiosa não sofria a mínima contrariedade e estava acostumada a ser, não somente obedecida como lei, mas aceita como ponto de fé.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.