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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— E tu o que fizeste? 

— Peri viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares. 

O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade. 

— É preciso não te conhecer, Peri, para acreditar no que dizes; tu não podias olhar com indiferença para os inimigos de tua senhora e meus. 

O índio sorriu tristemente. 

— Eram mais fortes; Peri deixou que passassem. 

D. Antônio começou a refletir; parecia evocar as suas reminiscências, e combinar certas circunstâncias que tinha impressas na memória. 

Seu olhar abaixando-se do rosto de Peri, caíra sobre os ombros; a princípio vago e distraído como o de um homem que medita, começou a fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quase imperceptível, que aparecia no saio de algodão do índio. 

À proporção que a vista se firmava, e que o objeto se desenhava mais distinto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado a solução de um difícil problema.

— Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente. 

Peri recuou um passo; mas D. Antônio lançando-se para ele entreabriu o talho de sua camisa: e tirou-lhe as duas pistolas da cinta, examinou-as, e viu que estavam descarregadas. 

O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços e contemplou o índio com admiração profunda. 

— Peri, disse ele, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o coração de um cavalheiro português. Tomo-vos a todos por testemunhas, que vistes um dia D. Antônio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de sua raça e de sua religião, como a seu igual em nobreza e sentimentos. 

O fidalgo abriu os braços e deu em Peri o abraço fraternal consagrado pelos estilos da antiga cavalaria, da qual já naquele tempo apenas restavam vagas tradições. O índio, de olhos baixos, comovido e confuso, parecia um criminoso em face do juiz. 

— Vamos, Peri, disse D. Antônio, um homem não deve mentir, nem mesmo para esconder as suas boas ações. Responde-me a verdade. 

— Fala. 

— Quem disparou dois tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no banho? 

— Foi Peri. 

— Quem atirou uma flecha que caiu junto de Cecília? 

— Um Aimoré, respondeu o índio estremecendo. 

— Por que a outra flecha ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos selvagens? Peri não respondeu. 

— É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te ofereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste. 

— Tu sabes tudo; Peri não é mais preciso; volta à sua tribo. 

O índio lançou um último olhar à sua senhora, e caminhou para a porta

— Peri! exclamou Cecília, fica; tua senhora manda. 

Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lágrimas, disse com um tom suplicante:

— Não é verdade? Ele não deve partir mais. Vós não podeis mandá-lo embora, depois do que fez por mim? 

— Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da guarda que vela sobre a salvação de todos. Ele ficará conosco, e para sempre. 

Peri, trêmulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso dos lábios de D. Antônio. 

— Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma expressão solene, julgais que um homem que acaba de salvar pela segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida; que, despedido por nós, apesar da nossa ingratidão, a sua última palavra é uma dedicação por aqueles que o desconhecem; julgais que este homem deva sair da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se ele ai não estivera? 

D. Lauriana, tirados os seus prejuízos, era uma boa senhora: e quando o seu coração se comovia, sabia compreender os sentimentos generosos. As palavras de seu marido acharam eco em sua alma. 

— Não, disse ela levantando-se e dando alguns passos; Peri deve ficar, sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antônio de Mariz; tenho também a minha dívida a pagar. 

O índio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe estendera. 

Cecília batia as mãos de contente; os dois cavalheiros sorriam, um para o outro, e compreendiam-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o aprovava, e seguiria o exemplo que lhe dava. Neste momento Aires Gomes apareceu no vão da porta e ficou estupefato. 

O que passava era para ele uma coisa incompreensível, um enigma indecifrável para quem ignorava o que sucedera anteriormente. 

(continua...)

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