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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Não há dúvidas, Doutor! O senhor sabe que o governo está em economias e não pode atendê-lo. Em todo o caso o Estado tem uma casa disponível com um razoável quintal, à rua Conde de Bonfim, e em pequena escala, o senhor podia experimentar. Vá ver a casa.

Inútil é dizer que Bogoloff não tinha nenhum interesse em por em prática as suas fantásticas idéias. Foi ver a casa e fez um relatório completamente desfavorável. Nem outro podia ser. A casa era um pardieiro arruinado e o quintal tinha para pastagem algumas touceiras desse capim a quem chamam “pés de galinhas”. Aconselhou-lhe o ministro por essa ocasião:

— Doutor, não se aborreça. Ninguém mais do que eu conhece as vantagens do seu processo, a barateza que ia trazer para um gênero de primeira necessidade, mas o governo está em apuros, está cortando as despesas... Sinto muito, mas... Olhe: faça como eu, escreva regulamentos... Se não quiser... Se não quiser, aconselho que se ocupe com o expediente ordinário de sua repartição e espere um pouco.

Bogoloff viveu assim feliz e tranqüilo. Os cruéis acontecimentos que o envolviam não despertavam nele os ardores generosos da primeira mocidade, que tanta amargura havia sofrido. Nascera em Kazan, na Rússia, onde seu pai tinha um “sebo” que lhe dava os parcos recursos necessários à subsistência de ambos. Aquele contato com os livros desde quase o seu nascimento, dera-lhe “fumaças” e a inaptidão do intelectual de origem obscura para o esforço seguido, quando se choca com o meio naturalmente hostil. Fez o seu curso na faculdade de Línguas Orientais da Universidade em que Lobatchevsky afirmou, com rara coragem intelectual e grande vigor, que, por um ponto fora de uma reta se podiam tirar várias paralelas a essa reta.

Anos passou dentro dos seus “inocentes sonhos” de quimeras de justiça e de fraternidade. Inutilizou-se; fez-se honesto de pensamento e de coração. Acabado o curso, não sabia fazer nada; viveu encostado ao pai sem atinar como havia de empregar o seu persa e o seu tártaro.

Travou conhecimento com revolucionários, freqüentou-os nos cafés, estimou alguns, foi tido por suspeito; e, quando houve um atentado contra a vida do governador da cidade, foi com outros parar à cadeia, a fim de ser escolhido aquele cuja cabeça devia ser perdida para que a majestade do Estado não fosse conspurcada.

Verificaram que nada tinha com o caso, soltaram-no. Rolou de cidade em cidade depois de ter perdido o pai, por fim veio para o Brasil para sossegar e morrer.

Não tinha mais escrúpulos; e se não cobria humanidade com desprezo, desprezava-se a si mesmo, não se detendo diante de empecilho moral, senão daquele que fosse castigado pelo Código.

A terra era boa e chã; e ele não se incomodava em saber se era bem governada ou mal. Ia vivendo com a sua liberdade interior, perfeita e completa.

Não empregava os processos ultra cínicos de Fuas, mas pouco se interessava pelas suas questões. Fuas, porém, fingia interessar-se, tomava partido, indignava-se, chegava-se a este e àquele, mostrando dedicação, a ponto de fornecer aos bisonhos prazeres requintados de casas de ópio que ele mesmo montava com o auxílio de velhas cocotes conhecidas, ou desbragadas orgias, tendo por convivas “parvenus” que iam para elas sem o enfado de viver e a embriaguez do poder de patrícios romanos, mas com a grosseria da sua falta de cultura e a inquietude das estreitas preocupações do momento. Os seus convivas eram senadores amatutados, ricaços que, há trinta ou quarenta anos, não pensavam senão em ladroeiras honestas, traficantes de todos os matizes e aventureiros de todas as cores. Este era dos seus mais seguros processos de arranjar dedicações e seguros protetores para os seus negócios. Outros processos de que lançava mão era perder propositadamente no pôquer, quando queria obter do parceiro influente proteção para um grosso negócio. Com Bastos, acontecia quase sempre isso. Vivendo assim, de rendosos expedientes, pouco se lhe dava que as coisas marchassem bem ou mal. Se as dele iam bem, estavam satisfeitos; se não, procurava fazer com que caminhassem a seu contento, por qualquer meio que fosse.

Nem todos, porém, eram assim; nem todos tinham a indiferença filosófica de Bogoloff e o secreto desdém do hipócrita Fuas pelas coisas do Brasil. Benevenuto, que sempre fora totalmente infenso aos conluios políticos, que mesmo duvidava da pátria, sentia dentro de sei energias até agora sopitadas. Aquele espetáculo de subserviência geral, aquele amordaçamento da opinião, aquela série de delitos de toda a natureza, reagiram sobre ele e tiraram-no do seu quietismo.



(continua...)

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