Por Aluísio Azevedo (1895)
Uma enorme cabeleira, hirsuta e destratada, cobria-lhe a cabeça e ligava-lhe às grandes barbas grisalhas, dando-lhe um aspecto terrível de facínora. Viam-se-lhe as palmas das mãos rasgadas e ensangüentadas, porque o desgraçado fizera talvez um quarto de légua de gatinhas pelos telhados.
De tão cansado que vinha não podia respirar sem abrir de todo a boca, a patentear a dentadura enegrecida de fumo e embaciada pelo álcool.
Logo que se achou menos convulso, volveu em torno os olhos, com o assombro de uma fera perseguida, e pediu um pouco dágua - por amor de Deus.
O Coruja, que estava a contemplá-lo silenciosamente, foi buscar uma bilha cheia e trouxelha, dizendo: - Aqui tem, amigo.
Então o homem, tomando a bilha entre as mãos enormes e sangrentas, olhou-o espantado, luzindo nos seus grandes olhos, verdes e arregalados, uma expressão de terror e de pasmo.
- Beba, acrescentou o Coruja, batendo-lhe no ombro; não tenha medo, que aqui não será perseguido. Beba sem receio e descanse, que ao depois eu lhe darei de comer, se você tem fome
Ao ouvir isto, o homem, que nesse instante acabava de despejar de um trago a pilha inteira, começou a fitar o Coruja e a rir apalermadamente.
Este arrastou para junto dele uma poltrona que havia no quarto, e disse-lhe com um gesto que se assentasse.
Não se ergueu o foragido e, cada vez mais admirado, engatinhou-se para a poltrona e ia assentar-se nela, olhando de esguelha para o Coruja, quando um rumor no corredor fê-lo dar um salto e, de mãos abertas, os dedos espetados, os olhos com a mesma primeira expressão da janela, regougou assombrado:
- Quem é? Quem é?!
E precipitou-se para um dos cantos do quarto.
- Não é nada, volveu o Coruja. Talvez algum vizinho que se recolhe. Pode ficar tranqüilo que aqui não lhe acontecerá mal de espécie alguma. Vamos, assente-se e descanse. Para melhor o tranqüilizar, foi à porta da entrada e fechou-a por dentro, a chave. Depois, ao voltar de fazer isto, foi que notou deveras a estranha figura do seu protegido.
Este agora, de pé, com a sua grande cabeleira caída sobre os olhos, estava medonho. Era de enorme estatura, magro, mas vigoroso; peito cabeludo e punhos grossos, que pareciam raízes de árvore.
O Coruja sentiu-se pequeno defronte daquele colosso. Foi quase intimidado que se aproximou dele novamente, para lhe repetir que se assentasse.
O homem acompanhava-lhe todos os movimentos sempre com o mesmo desconfiado espanto. André foi ao interior da casa, andou por lá remexendo nos armários e voltou afinal com uma travessa de carne assada e um pão.
Pôs isto sobre uma mesinha, que ele mesmo desocupou para esse fim, foi ainda buscar lá dentro uma garrafa de vinho e disse ao hóspede:
- Coma.
O foragido, sem deixar de lhe acompanhar os menores movimentos, encaminhou-se logo para a mesa e ia lançar-se sofregamente sobre a comida, quando uma explosão de soluços lhe tomou a garganta; e, escondendo a carranca nas suas mãos enormes, ele soluçava com tal ímpeto, que o corpo todo se lhe sacudia nos arrancos do choro.
Coruja não deu palavra, deixou o homem chorar à vontade e pôs-se a fingir que lia um livro junto à secretária; depois foi fazer café.
Passada a crise das lágrimas, o desgraçado principiou a comer, a comer muito, como quem traz uma velha fome de muitos dias. Deixou os pratos limpos e a garrafa enxuta.
- Sente-se agora melhor? perguntou o rapaz.
O outro tomou-lhe a mão e beijou-lha, enquanto dois grossos lhe corriam dos olhos pela aspereza das barbas.
- Está pronto o café, disse Coruja indo buscar a máquina e enchendo duas xícaras.
- Nisto eu lhe faço companhia.
E, depois de lhe passar uma delas:
- O senhor talvez esteja habituado a fumar...
O hóspede fez um gesto afirmativo e ele apressou-se a ir buscar um dos charutos que comprara para Teobaldo.
Durante o café conversaram. O homem declarou que era muito desgraçado: fora trabalhar, tinha o ofício de ferreiro, mas estava preso havia mais de três anos e só agora conseguira fugir, depois de frustradas tentativas, que só lhe renderam novas penas e novos castigos. - Por que o prenderam?
- Porque eu matei minha mulher. Havia muito tempo que andava desconfiado dela, um dia escondi-me, e vi entrar um homem no meu quarto e, quando a descarada apareceu para se deitar com ele, meti-lhe uma faca na barriga!
- E o sujeito?
- O sujeito ficou atrapalhado, atirou-se, sem saber o que fazia, por uma janela e foi cair embaixo meio morto. Um diabo de um vizinho que eu tinha, foi quem me entregou à Polícia. Fui preso na mesma ocasião. - E agora, você o que tenciona fazer?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.