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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

E Ozéas acrescentou a um gesto negativo do discípulo:

— Ah! Não tentes enganar-me!... Tens, seja qual for, uma preocupação bem grave, que inclitamente procuras esconder aos meus olhos! ... Há alguns instantes que te observo, que acompanho todos os teus movimentos, cheguei mesmo a ouvir muitas palavras do teu monólogo de louco! Ah, sim! tens uma dor secreta, e eu hei de arrancar-te e destruí-la, custe o que custar!... Vamos! É melhor que fales com franqueza!

— Nada! Não tenho nada!... insistiu o pároco, visivelmente perturbado.

— Negas?!... Desconheço-te, Ângelo!... Já não és o mesmo casto discípulo, que eu cerquei durante vinte anos com a dedicação dos meus desvelos e da minha fé!...

— Creia que se ilude, meu pai!...

— Tu é que me queres iludir, Ângelo... Ah! mas não o conseguirás! Não suponhas que vim aqui às apalpadelas... Tenho-te acompanhado de longe, desde que a enfermidade me obrigou a separar-me de ti...

E recuperando de súbito o seu antigo ar enérgico, exclamou:

— Exijo que me confesses abertamente a causa deste teu estado atual!

— Mas...

— Exijo!

— Mas que lhe hei de dizer?...

— Fala-me, por exemplo, das conseqüências daquele estranho sobressalto, que te aconteceu quando celebravas a tua primeira missa... Ainda até hoje não me deste conta disso!...

Ângelo estremeceu, balbuciando alguns sons ininteligíveis . E Ozéas acrescentou:

— Sim, nunca me confessaste que ele foi provocado por uma mulher que se achava na igreja...

O pároco estremeceu ainda.

— E por que tremes agora?... bradou o velho. Por que abaixas os olhos?... Por que desse modo empalideces?... Por que as lágrimas estão a correr-te pelas faces?... Ah! eram bem fundados os meus receios de então!... são bem certas as minhas desconfianças de agora!...

— Desconfianças?... De que?...

— De que Alzira te preocupa ainda!.

— Alzira já não existe...

— Sim, já não existe para o mundo... Quem sabe, porém, se ela não continuará a existir para a tua imaginação enferma e desvairada?...

O pobre maço tomou-lhe as mãos.

— Por que diz isso, meu pai?. .

— Porque vejo e compreendo que uma idéia fixa te rói o cérebro e devora-te a razão! Quero saber o que é! Fala!

Houve uma pausa.

Ozéas prosseguiu, mudando de tom:

— É a primeira vez que bato ao teu coração, e ele se não abre logo de par em par!... Compreendo: já te não possuo... já não és o mesmo que foste para mim... já não és o meu filho submisso e casto!... Perdi tudo! Paciência! Nada mais me resta a fazer aqui... Adeus.

Ângelo prendeu-o nos braços.

— Perdoe! perdoe, meu pai!

— Então fala!

— Ah! se soubesses quanto eu sofro!.

— E não obstante ainda há pouco sustentavas o contrário... Bem vês que tenho razão!...

— Sim, mas, por amor de Deus, não exija que eu fale!...

— Ao contrário, quero que me abras o teu coração com toda a confiança, quero que mo despejes em confissão, como o fazias dantes!

— Mas é tão estranho o que se passa comigo!...

— Conta-me tudo!

— Sou um imperdoável pecador!

— Maior serias se não me falasses com sinceridade! ...

— Sou um desgraçado!...

— Não tanto, como se eu não estivesse agora a teu lado, disposto a salvar-te!...

— Mas o meu crime é traiçoeiro... só se apodera de mim durante a inconsciência do sonho...

Ozéas, fixou-o, e, concentrando a atenção, disse depois surdamente:

— Continua...

— Vou dizer-lhe tudo com franqueza!...

E Ângelo olhou para os lados, e acrescentou, abafando a voz:

— Vou contar-lhe tudo...

— Fala, meu filho...

— A perturbação que eu senti no dia em que me ordenei, era com efeito causada por uma mulher...

— Alzira...

— Sim... confirmou o pároco, meneando lentamente a cabeça. Sim... Alzira... Soube logo que esse era o seu nome, em volta de mim na igreja todos o repetiam quando ela me fitava da tribuna...

— Eu notei. E depois!...

— Só a tornei a ver naquela noite em que deixei Paris... E no dia em que ela veio procurar-me aqui.

— Sei. Adiante.

— Sua imagem, porém, nunca mais me saiu da memória, até que, uma noite, sonhei que vinham buscar-me para socorrer um moribundo...

— Não foi sonho, foi a realidade...

— A realidade?!... exclamou Ângelo, com os olhos pasmados. Então é real que a estreitei nos meus braços?... Então é real que a ressuscitei com os meus beijos?! ...

— Isso é que já foi sonho, ou melhor, delírio!

(continua...)

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