Por Aluísio Azevedo (1897)
E Gaspar segurouo pelos braços, na esperança de aproveitar o estado de quase inconsciência de Gabriel.
— E Ambrosina?.. perguntou este.
— Virá depois.
— Não! Eu só irei com ela!
— Ela não pode vir!
— Por quê?...
— Porque não!
— Então, largame!
— Gabriel, atende ao teu único amigo! Repara que estás cercado de vergonhas! Olha que é a perdição que se respira aqui!
— Se Ambrosina merecesse tal dedicação, vá! porém, ela, desgraçado, zomba de ti! enganate com outro!
— Mentes, miserável!
— Não sei! deixame!
— Nada de bulha, e ouve o que te digo... Prometes acompanharme, se eu te provar a infidelidade de Ambrosina?...
— Prometo!
— Pois vem cá. Não faças rumor com os pés... atravessemos este corredor... Bem! agora passemos por este lado do jardim... Espera; reprime um pouco a respiração e abafa os teus passos... Agora entremos nesta alameda... Aí! Olha por entre estes galhos... O que vês?
A própria embriaguez e a sombra das folhas não permitiram logo a Gabriel reconhecer a amante nos braços de Melo Rosa; mas, pela voz dos dois e pelo que diziam, certificouse num relance de que era traído e precipitouse com fúria sobre eles, exclamando como um louco:
— Infames! Infames!
Gaspar, porém, senhoreouse vigorosamente do enteado, enquanto Ambrosina e o Melo corriam pelo jardim.
— Largame! bradava Gabriel, procurando escapar das mãos do padrasto; largame, ou enlouqueço!
— Não! daqui sairemos juntos. Nem voltarás lá dentro; nada tens que fazer nesse covil de miseráveis! Saiamos pelo portão do jardim, amanhã mesmo partiremos para o Rio de Janeiro!
— Deixame! deixame! insistia Gabriel.
Melo Rosa conseguiu ganhar a rua e fugir, justamente quando o amante iludido lograva escapar dos braços do amigo.
Esta cena levantou grande rumor, pondo em sobressalto os que estavam na casa. Mas na ocasião em que Gabriel se dispunha a perseguir o Melo Rosa, ouviuse um bramido terrível e em seguida um grito de Ambrosina:
— O louco!
Com efeito, era Leonardo que surgia. Há dois dias fugira do hospital e vagava foragido pelas ruas do arrabalde, até que o acaso lhe fizera dar com a casa da mulher.
Genoveva tivera tempo de fechar a porta da sala, mas o doido, com um empurrão, meterase dentro, produzindo formidável estrondo.
O amigo do Melo, que dormia num canapé, acordou sobressaltado e corria à toa pelos quartos. Alfredo, tiritando de susto, ganhou um canto da sala de jantar e escondeuse. A sujeita do Rego, a suster as saias, gritava que a tirassem daquele inferno, e Genoveva, tratando de fugir, puxara do seio um rosário e rezava atrapalhadamente as orações que lhe vinham à boca.
Ambrosina, entretanto, ao reconhecer a figura terrível do marido, correra para o jardim, mas, dando aí com Gaspar e Gabriel, voltara estonteada, exclamando, a abraçarse com a mãe:
— Salveme! Salveme! Todos eles me querem matar! Salveme, por amor de Deus!
Leonardo havia parado no meio da casa, imóvel, tinha na mão o trinchante que apanhara da mesa.
A figura, o gesto, a voz, tudo nele era horrível. Cobrialhe a cabeça e a cara uma porção emaranhada de cabelos secos e negros. O olhar luzialhe com cintilações vermelhas, e as suas narinas pareciam procurar a carniça pelo faro.
A casa converteuse em um inferno de exclamações. De todos os lados gritos, pragas e ameaças.
Entretanto, o doido percebeu Ambrosina na sala de jantar, e soltou uma gargalhada.
— Até que afinal te encontro! berrou ele.
A mísera olhou em torno de si e reparou, trêmula, que a sala estava fechada e quase às escuras.
O doido correu para ela, empunhando a faca.
Ambrosina ia perder os sentidos, mas notou que a porta da dispensa, que dava para a sala de jantar, estava aberta, e a esperança de alcançála reanimoua, porque seria fácil embastilharse lá dentro, deslocando uma prateleira volante que aí existia logo à entrada.
Leonardo avançava, brandindo a faca; entre ele e a mulher havia, porém, a mesa de jantar, e os dois começaram a correr em torno desta como fazem as crianças, quando brincam o "Tempo será".
Leonardo galgara a mesa aos saltos, lançando por terra cadeiras e garrafas. Aterrava vêlo pular daquele modo, grunhindo como um torturado. Mas, se ele tinha a agilidade do tigre tinha a perseguida a destreza da camurça e, a um pulo de Leonardo, Ambrosina opunha uma pirueta, que a tirava do seu alcance.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.