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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

E assim ião os dous amantes passeando e conversando tão esquecidos do mundo e do tempo, que Juliana sorrio ouvindo o signal de três quartos depois das duas horas, e disse:

— Oh ! como passou voando esta meia hora de passeio, Jorge !...

— Malditas sejão pois as azas do tempo que vôa, quando devia arrastar-se preguiçoso ! e gloria ao amor que sabe aproveitar as horas, que fogem rapidas ! passemos...

— Sinto-me um pouco fatigada : voltemos, vamos sentar-nos em um dos bancos do terraço.

— Juliana ! temos diante de nós um caramanchão que nos ofierece um banco de relva !

Juliana deixou-se levar como uma pobre cega pela mão do perfido conductor.

XIX.

O caramanchão era aberto por tres lados, e tinha o outro lado e o tecto coberto por um tapete de verdura formado por trepadeiras de flores odoriferas. O banco de relva que havia no caramanchão estava molhado do orvalho.

Jorge tirou do braço a sua capa, desdobrou-a, estendeu-a, sobre a relva, e fazendo sentar Juliana a seu lado, disse pela vigésima ou trigesima vez :

— Ah! como tu és formosa, minha querida noiva!...

— Eu quizera parecer sempre formosa a teus olhos, Jorge ; formosa porém não sou eu : formosa é esta lua tão brilhante e serena! for moso é este céo tão limpo de nuvens ! formoso é este jardim tão coberto de flores que embalsamão os ares ! formosa é esta noite tão rica de encantos! formosa emfim é esta solidão tão cheia de amor innocente e puro !

— Juliana! a tua alma se abre finalmente, livre de vãos temores, ás emoções enlevadoras e fervidas do mais nobre dos affcctos !... falla mais, falla ; porque tuas palavras me parecera os echos que respondem ás fallas que do meu coração têm rompido para os meus labios !

— Jorge ! Jorge ! o mais que eu sinto não se diz, porque é impossível; eu te amo! Eis tudo.

O sino do templo vizinho dobrou annunciando tres horas da noite.

Jorge sentio como um brando choque, pois estremeceu ligeiramente; não dando porém a perceber a impressão que recebera, disse logo:

— Juliana, não te esfrie esse entusiasmo pela solidão : dentro em pouco serás minha esposa: tu és o encanto das mais brilhantes sociedades, és a flor mais bella de jardim ele gante da nossa capital; eu não ousarei roubar- te á admiração e ao culto das nossas assem-bléas, não te privarei das festas em que és sempre a rainha, não; mas hei de pedir-te algumas vezes o sacrifício de breves dias em que eu te leve a uma solidão propicia e deleitosa, em cujo seio eu te adore, e ninguém perturbe o meu culto, e ardente e apaixonado eu me farte de beijar os teus olhos que me tornarão escravo, e o teu peito, onde tenho meu thronode amor !...

Jorge fallava com vehemencia calculada ; alguma cousa porém devia preoccupal-o não pouco; porque uma ou outra vez sua cabeça se voltava de leve, e o seu ouvido como que procurava um som estranho e longinquo.

Juliana muito enlevada para poder notar naquelles ligeiros signaes de uma impaciencia inexplicavel, respondeu ao seu noivo :

— Jorge ! d'ora avante eu quero ser bella somente para ti, quero a solidão comtigo não para um dia, mas para sempre; porque a

minha vida, o meu futuro, e a minha felicidade dependem só e exclusivamente do teu amor !

— Juliana!... exclamou o mancebo com paixão e apertando entre as suas uma das mãos da donzella; Juliana!... minha Juliana !...

A moça não retirou a mão que o mancebo apertava, e nesse momento soou não muito longe um canto que pouco a pouco veio-se approximando.

Um sorriso quasi imperceptivel passou pelos labios de Jorge de Almeida.

XX.

A voz que cantava era de homem, suave porém e melodiosa, tão cheia de sentimento que passava dos ouvidos ao coração de quem a escutava.

E o canto, quebrando o silencio das deshoras, tinha alguma cousa de irresistivel encantamento.

Juliana disse :

— Alguém passa cantando, Jorge !

E Jorge respondeu apertando a mão da donzella:

— Escutemos, Juliana.

A voz dizia assim no seu canto :

Esta lua tão formosa,

Esta noite deleitosa,

Este céo de lactea côr,

Este silencio profundo,

Este repouso do mundo,

É tudo encanto de amor.

O canto parou por momentos.

— Como é bello este canto ! disse Juliana suspirando.

— É porque exprime os puros sentimentos do coração, respondeu Jorge.

E o mancebo levou aos labios a mão que apertava, e beijou-a muitas vezes.

A voz continuou a cantar com dobrada suavidade:

Emquanto dura este enleio,

Triumphão de um vão receio Os que se amão cora ardor, Vencem do pejo os rigores, E vão no meio das flores

Trocar protestos de amor.

— Juliana... minha noiva ! exclamou Jorge.

(continua...)

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