Por José de Alencar (1872)
Se alguém, que não ele, tinha de ser amado por Besita, fosse-o Luís Galvão de quem era amigo; outro qualquer morreria às suas mão; assim o jurara.
Adivinhou Besita as duas afeições de que era objeto, e com a intuição da mulher amada, conheceu o contraste profundo que havia entre ambas. A paixão do Bugre era submissa, a do moço imperiosa; na primeira ressumbrava a abnegação, a segunda ardia em desejos.
Sentiu ela também que ia amar, senão amava já a Luís Galvão; e por isso mesmo prevendo os perigos de sua ternura por um homem capaz de tudo ousar, tornou-se fria e constrangida em relação a ele, enquanto mostrava-se expansiva e afetuosa com o Bugre.
Sabia que deste nada tinha a recear nem mesmo um olhar impertinente, pois todo o emprenho dele era ocultar sua ardente dedicação. Assim podia gozar desse inocente prazer de ver-se adorada mudamente como uma santa.
Em princípio contentou-se Luís Galvão com as visitas que sob qualquer pretexto fazia ao velho Guedes, e os encontros que tinha com Besita na missa ou em casa de nhá Tudinha. De dia em dia porém foi-se tornando mais exigente; e chegou a alcançar da moça algumas entrevistas no quintal ao escurecer.
Besita concentrava todas as duas forçar para resistir; considerando-se irremediavelmente perdida, buscava em torno de si um apoio que a amparasse e não achava. Seu pai era um pobre velho, que via no namoro de Luís uma boa fortuna. Não tinha em falta de sua mãe uma amiga, que a defendesse contra os próprios impulsos de seu coração.
Nestas circunstâncias, apareceu em Santa Bárbara um moço chamado Ribeiro, que vinha arrecadar alguns bens da herança de um tio. Vendo Besita, apaixonara-se por ela e a pedira em casamento ao velho Guedes.
- O Luís é melhor! disse o pai à filha, comunicando-lhe o pedido.
Besita tornou-se pálida e respondeu com a voz trêmula:
- Mas Luís não se casará comigo!
- Tu pensas?
- Tenho a certeza.
- Pois havemos de ver.
À tarde apareceu Luís Galvão. Contou-lhe o Guedes a pretensão do Ribeiro, e pediu-lhe conselho. O filho do fazendeiro demudou-se; mas recobrando-se sugeriu dúvidas sobre os haveres do pretendente, alegando ser pessoa desconhecida no lugar.
Esperou o Guedes quinze dias, decorridos eles, disse à filha:
- Tu adivinhaste, É um peralta!... Aceita a mão do Ribeiro, e serás feliz.
- O que meu pai ordenar, eu o farei de boa vontade! respondeu a menina com doce resignação.
Aceitava ela esse casamento como um sacrifício, para salvar sua virtude, embora à custa dos sonhos fagueiros de sua alma.
Espalhada a notícia do casamento, Jão sabendo-a teve um cruel sossôbro, como se fora ele próprio a quem a moça repudiasse para se dar a outro. Tão identificados estavam em sua alma os dois amantes, que ele já não os separava em seu afeto; e envolvia Luís na adoração que tinha por Besita, e esta na amizade que voltava àquele.
A primeira vez que depois disso o capanga viu a moça à janela, voltou o rosto para não lhe falar.
- Está mal comigo, Jão? disse Besita com o modo afetuoso que lhe era habitual.
Deitou-lhe o bugre um olhar duro, e pregando a aba do chapéu na testa com um murro, não tugiu.
- Que lhe fiz eu, para não me falar?
- Mecê não vai se casar com o Ribeiro?
- É por isso?
- E nhô Luís?
Besita fitou o rapaz nos seus grandes olhos, onde brilhavam aljôfares de lágrimas, e mostrou-lhe um cravo que tinha nos cabelos.
- Se você, Jão, atirasse na beira da estrada, como uma coisa à toa, esta flor, podia se queixar porque outro a apanhasse para si?
- Então ele não quer bem a Nhazinha?
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.