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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Assim devia ser. Mas aí, como em tudo, o fato insurge-se contra o princípio. Não é esta a história do século dezenove, ao contrário do século dezoito, que foi a revolta da idéia contra o abuso e o prejuízo? A advocacia não passa de um pretexto; é um título de apresentação na sociedade. No foro inventou-se outrora um nome decente para certas indústrias, que se não confessam; certos réus ou testemunhas interrogados aos costumes, declaram que vivem de “suas agências”. Pois a palavra “advogado” tem o mesmo préstimo, com a diferença de serem os agentes mais graduados e as agências mais gordas. 

- E V. Ex.ª pertence a esta classe? observou Ricardo com ironia. 

- Por que não? Charles Nodier dizia no princípio deste século – Je ne connais qu’un métier à décrier, celui de Dieu! O Nogueira, que tinha presunção de falar bem as línguas estrangeiras, pronunciou a citação francesa com uma afetação ridícula e um sotaque que devia ferir o ouvido normando. 

- Pois eu creio que em França nenhum ofício caíra em maior descrédito, observou com muito a propósito o paulista.

- Deixemos de parte a religião. É ponto que não discuto, atalhou categoricamente o candidato e prosseguiu. Mas Ricardo interrompeu: 

- Não chamo religião essa exploração da consciência a que o escritor francês dava com muita propriedade o nome de ofício. 

Custou a Ricardo inserir no discurso do Nogueira esta pequena observação. Foi necessário cortar-lhe a palavra, e arrostar o gesto desdenhoso e magistral do candidato que desviava a réplica, dum revés do rosto. 

- Em país algum é tão verdadeiro o dito de Nodier como em o nosso, continuou o Dr. Nogueira com o tom amplo e sobranceiro de que servia-se para abafar as interrupções. Há coisa que mais se tenha ridicularizado do que sejam as altas posições políticas, e sobretudo o cargo de ministro? E não obstante todos caminhamos para lá.

- Nem todos! constestou Ricardo. 

- Sou advogado, pois, como serei deputado amanhã e mais tarde ministro e senador. Em toda a parte onde se reúnem i animali parlanti, por força que há de haver o deus e a besta. Ensinam as Santas Escrituras que o Criador formou o homem do lodo, amassando o barro e inspirando-lhe a centelha divina. Pois não é de admirar que em se chocando uns com outros, a lama de certas figuras se desmanche, e então que remédio têm os outros homens, senão patinarem nela, se querem passar adiante? 

- Os ambiciosos vulgares, não duvido que tenham pressa de chegar e não escolham caminho, nem companheiros de jornada. Mas há quem se desvie com asco do charco, embora se resigne a não passar adiante.

- O senhor formou-se ultimamente? perguntou o Nogueira com um sorriso protetor.

- Há cinco anos. 

- E é advogado também? 

O protesto que em tom veemente acabava de fazer contra as doutrinas do Nogueira, não o pudera conter o jovem e brioso paulista. Mas, arrependido, prometeu-se não tomar ao sério as excentricidades do Dr. Nogueira, o qual sem dúvida sofria de um sestro, que ataca muito os homens vaidosos de seu talento, o sestro do paradoxo. 

Assim como as damas, desvanecidas de sua formosura, inventam modas esquisitas e farfalhadas, penteados incríveis, anquinhas atentatórias da moral pública, escandalosos falbalás  e cinturas extravagantes, assim os talentos fátuos se deleitam em provar absurdos. 

- Aspiro a sê-lo; mas não como V. Ex.ª o entende, respondeu Ricardo com polida ironia à pergunta do Nogueira.

- Pensa então o senhor, que a ciência do mundo aprende-se nas escolas e academias? Se conheço hoje a nossa sociedade, não foi pelo que me ensinaram em Olinda, mas pelo que aprendi em um curso mais longo, em cerca de vinte anos de experiência. Na sua idade também tinha a cabeça cheia de utopias, e o coração abarrotado de ilusões. A advocacia representava para mim o sacerdócio da justiça, a nobre independência do talento. A imprensa, eu a considerava como uma realeza, e a mais legítima, porque tinha o seu trono na opinião.

- Mas isso não passava de uma abusão? 

- Completa, meu colega. Quando tiver alguma prática do foro, há de reconhecer que são as boas causas as que mais freqüentemente se perdem. Quem sustenta um pleito justo, confia no direito; mas o seu adversário emprega todos os recursos: e ganha. Quanto à independência, não passa de uma burla; todos nós, que mais somos do que uma cadeia de fuzis? Cada um segura-se ao anel de cima, e por sua vez suspende o anel de baixo; e assim trabalha a corrente do guindaste. 

(continua...)

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