Por José de Alencar (1875)
Na véspera tornara êle já noite alta à sua rede na copa do jacarandá, bem convencido de que o Fragoso tramava alguma coisa; e essa convicção ainda o dominava naquele momento.
Também não lhe escapou a quantidade de vaqueiros e pagens que formavam a comitiva do dono do Bargado; entretanto não era isso que mais o inquietava; porém o receio de um perigo vago e indefinido, que êle sentia agitar-se em tôrno de si, mas que não podia apreender.
III – O Dourado
A cavalgada chegara a uma ligeira eminência donde se dominava toda a planura em tôrno.
Era daí que melhor podia-se apreciaro aspecto dessa natureza múltipla, que se desdobrava desde a baixa até as serras de Santa Maria, Santa Catarina e do Estêvão, agrupadas ao norte, e da serra do Azul, que aparecia mais longe para as bandas do Aracatí.
Nos tabuleiros um bando de emas apostavam carreira com os veados campeiros; as raposas davam caça às zabelês; e o tamanduá passeava gravemente hasteando o longo penacho de sua cauda à guisa de bandeira.
Pelas margens das lagoas os jaburús caminham lentos e taciturnos ou miram-se imóveis nas águas. As garças carmeiam com o bico a alva plumagem; e o maranhão dorme ainda, em pé no meio do brejo, com a cabeça metida embaixo da asa e uma das pernas encolhida.
Além aparecia ao longe um mar doce. Era o Quixeramobim, que pejado com as chuvas do inverno, transbordara do leito submergindo toda a zona adjacente. No meio dêsse oceano boiava uma coroa de terra, que a torrente impetuosa arrancara da margem, e que deslizava como uma ilha flutuante.
Uma vaca surpreendida naquela nesga do solo continuava a pastar muito tranquila o capim viçoso, e às vezes fitava admirada a margem, que ia fugindo rapidamente à sua vista.
A várzea estava coalhada de gado, que no comprido pêlo e no aspecto arisco mostrava ser barbatão. Os touros erguendo a cabeça por cima das franças do panasco, lançavam à comitiva um olhar inquieto.
— É boi como terra! exclamou o Daniel Ferro com o seu falar sertanejo.
— Nem porisso, observou Ourém. Pela notícia, esperava outra coisa. Alí haverá quando muito umas cem cabeças.
— Êsse é o que está no limpo, a descoberto; e o outro? acudiu Agrela?
— Aonde?
— Por dentro do capim. Repare quando dá o vento!
Depois de uma breve pausa, para descanso dos animais, os cavaleiros preparavem-se para começar a montearia.
Como se tratava principalmente de campear os touros bravos por divertimento, o vaqueiro do Bargado com seus rapazes, deu cêrco à várzea, tangendo o gado para o limpo, a fim de escolherem os cavaleiros os touros que deviam correr apostados entre si, como era costume nessa caçada original.
Estava o capitão-mór e seus companheiros de observação, quando viram à desfilada o José Bernardo.
— Lá está o Dourado, sr. capitão, gritou êle de longe, mas velando a voz como receoso de ser ouvido além.
— Pois seja benvindo, o Dourado; ainda que eu não tenho a fortuna de o conhecer, ao tal senhor, disse o Marcos Fragoso galanteando.
— Pois não o conhece? acudiu o capitão-mór. É verdade que desde menino saíu do Quixeramobim, onde nasceu e criou-se; senão havia de ter notícia dele.
— É então algum façanhudo? tornou o mancebo no memo tom.
— Tem fama por todo êste sertão, respondeu gravemente o capitão-mór.
— E a fama já chegou aos Inhamuns, acrescentou Daniel Ferro.
— Pode ser; nunca ouví falar dele.
— Porque há três anos que o primo Fragoso lá não vai; o Recife enfeitiçou-o.
— Mas em suma, senhores, atalhou o Ourém curioso; quem é êsse ilustre e famoso
Dourado, do qual já que o nosso Camões não teve dele notícia, farei eu
«Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.»
O capitão-mór voltou-se para o padre Teles, que pelo jeito acumulava ao cargo de capelão o de cronista:
— Padre Teles, conte aos senhores a história do Dourado.
— O Dourado é um boi… ia começando padre Teles.
— Um boi? atalhou o Ourém desconsertado.
— Eu também pensei que era algum valentão, observou o João Correia que partilhara da
surpresa.
— E eu tinha por certo que era o rei daquele célebre encantado, de que tanto se fala, e que debalde procuraram os descobridores, inclusive o nosso Pero Coelho. Mas talvez que o El-Dourado virasse boi! tornou Orém.
— Boi, sim! afirmou o capitão-mór por sua vez admirado da estranheza do licenciado. Então que pensavam os senhores? É um boi destemido e que tem zombado dos melhores vaqueiros dêste sertão. Há sete anos que êle apareceu, e até hoje ainda não houve quem se gabasse de pôr a mão no Dourado.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.