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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Porque assim é preciso, amigo. 

— Peri entende; estás cansado de dar-lhe hospitalidade! 

— Não! 

— Quando Peri te disse que ficava não te pediu nada; sua casa é feita de palha em cima de uma pedra; as árvores do mato lhe dão o sustento; sua roupa foi tecida por sua mãe que veio trazê-la na outra lua. Peri não te custa nada. 

Cecília chorava; D. Antônio e seu filho estavam comovidos; D. Lauriana mesma parecia enternecida. 

— Não digas isto, Peri! Nunca na minha casa te faltaria a menor coisa, se tu não recusasses tudo e não quisesses viver isolado na tua cabana. Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu. 

— Por que então mandas Peri embora? 

D. Antônio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um pretexto para explicar ao índio o seu procedimento: a idéia da religião, que todos os povos compreendem, pareceu-lhe a mais própria. 

— Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a quem amamos, respeitamos e obedecemos. 

— Sim 

— Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecemos; agora ele manda. 

— O Deus de Peri também mandava que ele ficasse com sua mãe, na sua tribo, junto dos ossos de seu pai; e Peri abandonou tudo para seguir-te. 

Houve um momento de silêncio; D. Antônio não sabia o que replicar. 

— Peri não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas que Peri vá, senhora? 

D. Lauriana que apenas se tinha falado em religião, voltara às suas prevenções contra o índio, fez um gesto imperioso à sua filha. 

— Sim! balbuciou Cecília. 

O índio abaixou a cabeça; uma lágrima deslizou-lhe pela face. 

O que ele sofria é impossível dizer: a palavra não sabe o segredo das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira vez sente-se vencida pela dor.  

X  DESPEDIDA 

 

D Antônio aproximou-se de Peri e apertou-lhe a mão: 

— O que eu te devo, Peri, não se paga; mas sei o que devo a mim mesmo. Tu voltas à tua tribo: apesar da tua coragem e esforço, pode a sorte da guerra não te ser favorável, e caíres em poder de algum dos nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; aceita-o em nome de tua senhora e no meu. 

O fidalgo entregou ao índio o pergaminho que há pouco tinha escrito e voltou-se para seu filho: 

— Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer português de quem Peri possa ser prisioneiro, que D. Antônio de Mariz e seus herdeiros respondem por ele e pelo seu resgate, qualquer que for. É mais um legado que vos deixo a cumprir, meu filho. 

— Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder a essa divida de honra, não só em respeito à vossa memória, como em satisfação dos meus próprios sentimentos. 

— Toda a minha família aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao índio, te agradece ainda uma vez o que fizestes por ela; reunimo-nos todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo onde nasceste. 

Peri fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes, como para dizer-lhes o adeus que seus lábios naquela ocasião não podiam exprimir. 

Apenas seus olhos se fitaram em Cecília, impelido por uma força invencível atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua senhora. 

A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta, e deitou-a no pescoço do índio: 

— Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Peri.  

— Não, senhora; de onde Peri vai, ninguém voltou. 

Cecília estremeceu. 

O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antônio de Mariz, que não podia dominar a sua emoção. 

— Peri vai partir; tu mandas, ele obedece; antes que o sol deixe a terra, Peri deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Peri não voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a alegria se partisse no fim da lua. 

— Por que razão? perguntou D. Antônio; desde que é necessário que nos separemos, tanto deves sentir hoje como daqui a três dias. 

— Não, replicou o índio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Peri estaria contigo para defender-te. 

— Vou ser atacado? exclamou D. Antônio pensativo. 

— Sim: podes contar. 

— E por quem? 

— Pelo Aimoré. 

— E como sabes isto? perguntou D. Antônio fitando nele um olhar desconfiado. 

O índio hesitou durante um momento; estudava a resposta. 

— Peri sabe porque viu o pai e o irmão da índia, que teu filho matou sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e caminharem para sua tribo.

(continua...)

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