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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Cândido sentia-se possuído de desespero e de vergonha; ansiado, faltava a seus pulmões ar para respirar; enxugava com o lenço suor copioso, que em bagas lhe descia pelo rosto. Seu coração estava comprimido por um pêso enorme; arquejava.

A viúva prosseguiu:

– Minha infeliz sobrinha correu para mim desolada, e escondida comigo no fundo de meu quarto, chorou tanto e tanto, que me fez dó, e obrigou a um passo que me causa realmente muita aflição.

– Ela chorou, senhora?... perguntou Cândido torcendo as mãos com violência.

– Oh! sim! ela tinha razão; perdoe-lhe, pois. Ela pesou as conseqüências desses boatos, e teve medo.

– E teve medo!... balbuciou automaticamente o mancebo.

– Porque, senhor, se esses boatos não forem desmentidos de algum modo

muito positivo, qual será o resultado deles? uma barreira se levantará diante do futuro da pobre menina. Nenhum homem de bem quererá pretender a mão, a posse da namorada de um outro, e, ou ela se casará com algum que não tenha sentimentos elevados... ou ficará eternamente solteira... o que é na verdade uma desgraça, ou, enfim, casar-se-á com o senhor.

– Ou enfim... balbuciou outra vez Cândido.

– Oh! mas eu tenho bastante conhecimento da generosidade de sua alma para acreditar que tudo isto lhe é tão doloroso como a ela; eu vejo que o senhor não se achando com forças, não podendo fazer a ventura de Celina...

A viúva hesitou outra vez.

– Não podendo... repetiu surdamente o mancebo.

A viúva respirou, animou-se, e prosseguiu.

– Porque o senhor é pobre... não tem bastante para si... e Celina está habituada a cômodos e prazeres, que enfim o senhor não a poderia fazer feliz... é pobre... e...

– Sou pobre... disse o mancebo com voz sombria e sacudindo a cabeça; é isso mesmo: eu sou pobre...

– E quando mesmo os senhores se amassem realmente, e o amor, operando um milagre que não seria o primeiro, fizesse com que Celina se julgasse feliz partilhando as privações da sua pobreza; essa felicidade duraria dois ou três meses, talvez mesmo um ano; mas passada a força da paixão... a realidade chegaria por sua vez, Celina choraria seus antigos prazeres, que o marido lhe não poderia dar em sua pobreza.

– A pobreza!

– E o senhor também se havia de arrepender de havê-la desposado; porque talvez que um homem rico e feliz, um homem que ocupasse na sociedade uma posição que se visse...

– Que se visse!...

– A quisesse por mulher; e então é conseqüente, e eu creio que o senhor pensará comigo, que uma mulher no seio da riqueza, gozando os regalos que ela facilita, brilhando pela posição de seu marido, é mil vezes mais feliz, é sem comparação mais ditosa do que nos braços de um pobre, que não teria para dar-lhe senão lágrimas de amor no princípio... e no fim impertinências e dissabores de indiferença...

– Tem razão.

– Oh! não sou eu que a tenho, é minha sobrinha que a tem; minha sobrinha, que o estima; mas que não pode deixar de chorar a sua fama assim ultrajada por seu respeito... bem que o senhor não tenha para isso cooperado.

A viúva calou-se... Cândido não podia dizer palavra; ambos porém sofriam muito. O mancebo tragava fel de amargura, de vergonha e de desespero, e Mariana sentia-se devorada por violentos remorsos.

Mas era escrava: tinha obedecido a seu senhor.

Estavam já em silêncio há alguns minutos, quando ouviu-se o toque da meianoite.

Mariana ergueu-se, e disse:

– Ah! meu Deus! que tempo estamos fora da sala... hão de ter reparado em minha ausência... voltemos, sr. Cândido.

O mancebo que se tinha deixado ficar sentado no banco de relva, respondeu com voz sombria:

– Não; eu fico.

A viúva retirou-se a passos vagarosos e com a cabeça baixa; desaparecendo pela portinha que deitava para o jardim, ela encostou-se à parede do corredor e desatou a chorar,

Quando Mariana acabava de sair do jardim, surgiu dentre alguns arbustos um homem alto e cuja cabeça alvejava de tão branca que era.

Chegou-se ao caramanchão, e dirigindo-se ao mancebo, disse:

– Aquela mulher mentiu.

– Não mentiu! exclamou Cândido com violência, não mentiu! é a verdade! o mundo falou em seus lábios... tudo aquilo quer dizer – o homem pobre é um miserável... o contato do homem pobre mancha o rico... seu hálito é pestífero... o seu aspecto hediondo... a pobreza é a morféia!

E acabando de pronunciar essas palavras, saiu correndo pela portinha do jardim.

Ficou só o velho Rodrigues.

CAPÍTULO XXI

HENRIQUE

O A MOR é a paixão das inconseqüências e dos absurdos.

A impossibilidade de bem defini-lo provém da mesma natureza desse sentimento. Tem-se escrito milhões de volumes sobre o amor, e a inteligência humana ainda o não retratou com todas as suas cores, porque sempre ele se mostra com uma nova nuança.

(continua...)

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