Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Manduca foi interrompido: o céu acabava de socorrer Brás-mimoso.
E os dois singulares rivais estenderam os pescoços e ficaram estáticos e boquiabertos, atentando os acentos melodiosos de uma voz doce e branda, que cantava uma música melancólica.
Uma idéia feliz tinha tido Hugo de Mendonça para obsequiar a seus hóspedes: como, à exceção de Brás-mimoso e Manduca, se achassem todos depois de algum tempo sentados debaixo de uma copada mangueira, que ficava próxima do mar, ele lembrou-se que ali, à mercê do silêncio da noite e ao clarão da lua, devia causar efeito bem agradável uma voz harmoniosa, que entoasse um canto; e, orgulhoso do mérito de sua filha, não hesitou em aconselhar-lhe que cantasse.
Félix ofereceu-se para acompanhá-la; apareceu um violão, e Honorina cantava.
Já então era noite fechada; mas a lua cheia e bela derramava sobre a interessante Niterói os raios de sua luz misteriosa. E uma voz entoava um hino melancólico. Oh! fora preciso estar ali, e ouvi-la; e sentir também como toda a natureza harmonizava os seres, punha em concerto os elementos para magicamente acompanhá-la. E, pois, brando favônio lambia apenas as folhagens... as ondas murmuravam docemente ao beijar das praias... a lua prestava à cena essa luz receosa e modesta, mercê da qual o fraco embalançar dos ramos, que a aura embalava, erguia aqui e ali seres fantásticos... místicas sombras noturnas, que, segundo o vaivém dos ramos, ora se agigantavam, ora se iam minguando até sumir-se de todo, para logo renascer outra vez... e por toda a parte o silêncio... e como equilibrando-se sobre ele essa voz... doce, angélica... que diríeis um longo suspirar de anjo... essa voz... um pouco curta talvez... mas tão cheia de encanto e magia... que soar... tocar o ouvido... e cair no coração de quem a escutava, era milagre de um breve instante... Oh! fora preciso ouvi-la!... e também fora preciso ver essa moça que cantava, assentada debaixo de copada mangueira... essa moça bela... pálida... vestida de branco... semelhante talvez à imagem vaporosa que a imaginação escaldada do viandante noturno vê à porta do templo solitário... ou curvada sobre a campa de um finado... essa moça, cuja voz tinha um não sei quê de tão subtil... tão melancólico... tão sobre-humano talvez, que retinia no âmago do coração, e nos seios da alma!...
Honorina escolhera para cantar uma lira que era desde alguns dias a sua favorita; que desde algumas noites ela preferia sempre a mil outras para entoá-la ao lado de seu pai, ou sentada à janela de seu quarto no silêncio das desoras: essa lira parecia como uma prece, que saía do seio de uma virgem para subir ao céu; ela dizia assim:
Inocente, incauta virgem,
Que inda o mundo te sorri... Esse mundo que te incensa Laços arma contra ti.
Virgem, mede os passos teus...
Virgem, só confia em Deus!...
Esses olhos que dardejam Sobre ti chamas de amor, Podem verter em teu seio Doce veneno traidor.
Virgem, mede os passos teus...
Virgem, só confia em Deus!...
Sê, ó virgem, sê somente
Sempre a rosa do Senhor... Vê que o vento afronta às vezes A do mundo pobre flor.
Virgem, mede os passos teus,
Virgem, só confia em Deus!...
Honorina calou-se... Os aplausos choveram sobre ela... os dois infelizes amantes, que de longe a tinham escutado, correram a derramar suas felicitações e seus parabéns aos pés da encantadora moça que os enfeitiçava; mas de repente os parabéns, os aplausos se suspenderam, e todos olharam surpreendidos para o mar; porque uma voz também sonora entoava de lá o seu canto, sujeitando-se à mesma música.
Favorecidos pelo luar, eles viram, a pouca distância da praia, um pequeno e lindo batelão parado, e sobre ele a figura branca de um homem, que, voltado para a árvore, debaixo da qual se achavam, cantava com voz comovida; e eles ouviram que seu canto dizia assim:
Inocente, bela virgem,
Que o mundo fazes sorrir... Amor, que inspira a virtude, Sabe em teu seio nutrir.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...
Lembra, que esse amor de poeta,
Em que pode uma alma arder,
Mesmo acabando na morte Por força belo há de ser.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...
Qual cede a rosa ao favônio Vivo aroma encantador;
Ao homem nobre e constante Ceda a virgem seu amor.
Virgem, mede os passos teus;
Mas cede ao sopro de Deus!...
O canto terminou; e o batelão se foi misteriosamente deslizando para o largo.
Insensivelmente toda a companhia se tinha aproximado à praia; só Honorina e Raquel haviam ficado no mesmo lugar, surpreendidas, e tomadas talvez do mesmo sentimento.
— É ele!... murmurou Honorina, quando sentiu que o canto acabava.
— Eu o conheci, disse Raquel; ele falou ainda uma vez no amor de poeta!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.