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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Numa, nessa questão de acumulações, sabedor como era grande o número de pessoas a que ela interessava, tinha procurado sondar a opinião de muita gente. Em Fuas, não pudera descobrir estrela que o guiasse. As suas opiniões, tanto por escrito, como pronunciadas, eram cheias de duplicidade, de evasivas, de restrições. Todas elas admitiam que o cidadão tivesse dois ou mais empregos quando fossem de natureza técnica, quando não houvesse capacidades senão em um indivíduo para preenchê-los. Fazer tais restrições era continuar a manter as acumulações. Por que, então, querer a solenidade de uma lei especial? Fuas, que era ladino, podia bem orientá-lo; Numa, porém, não gostava da sua intimidade. Ele o tratava com uma condescendência superior, como se fosse Fuas o legislador, o deputado. Se bem que precisasse dele, essa atitude do jornalista feria-o e tirava-lhe a acuidade nas perguntas, as lábias para surpreender-lhe a opinião. Na verdade, Fuas pouco se incomodava com a questão; os seus interesses se haviam voltado para Bogoloff.

É caso que o diretor da Pecuária Nacional logo que tomou posse do seu lugar, procurou Xandu, com quem teve uma conferência, na qual mostrou a necessidade de dar começo às experiências dos seus processos de fazer um boi quatro e fabricar carneiros que fossem ao mesmo tempo cabritos.

— Não há dúvida, Doutor, organize o seu plano — disse Xandu com toda a segurança. — Exponha o que necessita, pois aqui estou eu para fornecer-lhe os meios. O Doutor compreende perfeitamente que tenho o máximo empenho em levar avante esse empreendimento, não só porque é de um valor científico extraordinário, como também oferece aspectos práticos de alcance transcendente. Demais, a glória que lhe couber também será partilhada pelo meu ministério...

Consertou o monóculo na arcada orbitária e continuou com calor:

— Sou pela prática da atividade útil. Hoje, por exemplo, tenho que assinar 2.069 decretos e levo ao presidente 412 regulamentos, entre os quais um sobre a postura de galinhas, que lhe vai agradar muito... Não se dedica à avicultura, Doutor?

— Não; mas os meus processos são gerais, destinam-se a toda espécie da criação de animais. Havemos de experimentá-los, se V. Exa. me fornecer os meios necessários.

— Não há dúvida. Faça o orçamento.

Não se demorou muito Bogoloff em organizá-lo com todo o capricho. Nele, além de muitas coisas, exigia dez auxiliares hábeis, práticos e sabidos na bioquímica, os quais deviam ser contratados na Europa; exigia também um numeroso pessoal subalterno; pedia uma fazenda e uma grande verba para material e aparelhos.

Só em pessoal gastavam-se quatrocentos contos e outro tanto com a fazenda, aparelhos e material. Fuas, sabedor do caso, pôs algumas observações no seu jornal, sobre a criação da Estação Experimental da Reversão Animal e Quadruplicação do Bois. O russo procurou-o, os comentários cessaram e Fuas ficou encarregado da aquisição da fazenda, material e aparelhos.

Vencido esse pequeno tropeço, Bogoloff procurou o ministro, a quem apresentou o orçamento.

— Não lhe posso dar resposta já, meu caro Doutor. Estou muito

atrapalhado... Nesse país está tudo por prover e eu trabalho dia e noite. Nunca teve ministros e um que vem com disposições de trabalhar, esgota-se em pouco tempo... Imagine, que não pude tomar hoje o meu banho de frio, tanto estou atrasado!... Um dia em que não o faço, volto a ser o brasileiro mole que os senhores conhecem...

Assim mesmo já assinei 382 decretos e organizei 49 regulamentos... Ah! Doutor! Esse Brasil precisa de frio, muito frio!

Despediu-se Bogoloff do homem tão ativo e voltou ao seu gabinete de Quadruplicação de Bois, que era no próprio edifício da secretaria. Fuas esperou o resultado durante um mês e o trabalho do russo na Direção da Pecuária Nacional limitava-se, durante esse tempo, tão somente assinar os registros de estábulos e cocheiras da cidade.

Fuas Bandeiras desesperou e foi tratar de outros negócios; mas Bogoloff, que era mais tenaz, esperou pela decisão de Xandu. Houve um dia em que o ministro o chamou e falou-lhe a respeito da sua pecuária intensiva:

— Li o seu orçamento e a sua exposição. Muito bons, ambos! O orçamento está um pouco salgado. Por que o senhor quer um laboratório de química tão completo?

— V. Exa. compreende — disse-lhe o doutor russo — que os nossos processos se baseiam na bioquímica; daí essa necessidade.

— Não há dúvida, concordo; mas o Doutor podia bem dispensar a fazenda.

— E os meus bois onde viveriam: Não acha V. Exa. necessário pastagens?

— O seu método não se baseia na alimentação artificial, Doutor?

— Baseia-se na superalimentação química.

— Pois então? O seu gado podia até ser criado em uma sala.

— Isto podia dar-se se fosse um ou dois, mas muitos não é possível. Demais, não abandono inteiramente os métodos comuns de alimentação. Não é possível!



(continua...)

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