Por Aluísio Azevedo (1895)
- Então! Que é que eu dizia?! O homem esteve ou não esteve divertindo-se à nossa custa? É ou não é um impostor? Ora pois isto tem jeito?... Enganar assim uma pobre rapariga, faze-la perder o seu melhor tempo e depois virar-lhe as costas!
Além de que, sendo ele tão geralmente antipatizado e desquerido, prezava do fundo da alma aquela condescendente afeição de Inez, como um bem inesperado e singular que lhe viera quebrar o monótono abandono em que vivia. Posto que a sua extrema bondade o levasse constantemente a se esquecer de si mesmo para só cuidar dos outros, não podia ficar indiferente à vista daquele fato, que lhe enchia o coração com esta frase: - Eu também tenho uma mulher que me ama!
Amá-lo-ia?
Talvez não; mas o que para qualquer outro não passava de simples afabilidade vulgar e obrigada, para ele era a extrema manifestação da ternura feminil, tão habituado estava à indiferença e ao desamor dos seus semelhantes.
Para quem se acha nas trevas qualquer claridade que chega é um belo foco de luz.
- Pela primeira vez julgou possível ter uma companheira ao lado de sua vida, e essa idéia o transportou de júbilo; ser bom para todos, indiferentemente, é um gozo, mas ser bom para quem nos retribui os sacrifícios com amor e caridade, isso já é o que se chama a felicidade.
E amou-a, idolatrou-a com a alma ajoelhada, cheia de reconhecimento e respeito; amou-a com os crentes amam Deus, pedindo que os não repila nunca do seu seio.
No casamento. entretanto, ele não via apenas o caminho mais curto para chegar à felicidade, via também um meio de dirigir e regular as suas qualidades morais, dando-lhes um objetivo; o casamento era por bem dizer o modo de reunir em uma só criatura a humanidade inteira, por quem o Coruja ter-se-ia dedicado se pudesse.
Ou quem sabe se ele, considerando a grandeza exagerada do seu coração não queria dividi-lo com Inez, à semelhança de um milionário pródigo que, receoso de não poder sozinho gastar o seu tesouro, convida uma mulher para ajudá-lo?
- Por conseguinte, a idéia daquele amor, ao mesmo tempo que o consolava o constrangia.
- Mas, que fazer?... pensava. - Casar, sem dispor de meios para isso? - não! - Negar a Teobaldo o seu auxílio - nunca! Logo, o melhor e mais acertado era ir protelando o seu desígnio, até que chegasse a ocasião oportuna para realizá-lo condignamente.
Essa ocasião, porém, só chegaria com uma grande transformação na existência de Teobaldo.
André esperava que, de um momento para outro, o amigo encontrasse trabalho, modificasse os seus hábitos e endireitasse a vida.
- O que mais o atrapalha, dizia consigo - são as mulheres... ele, coitado, não tem culpa, porque até lhe foge, como tenho já observado, mas as malditas não se lhe despregam nem à mão de Deus Padre! Não sei que diabo tem o rapaz para as enfeitiçar deste modo!... São bilhetes, recadinhos, visitas, uma verdadeira perseguição! Ah! se eu fosse assim querido!.
E aquelas duas criaturas, inteiramente opostas, invejavam-se em silêncio, não com essa inveja mesquinha que se transforma em raiva, mas nessa outra que produz admiração e respeito.
- Se eu fosse feliz como ele... dizia cada um por sua vez, quando falava no outro.E tinham-se ambos na mesma conta de infortunosos: um por ser desejado demais e o outro por bem em demasia.
Em demasia, está claro, porque o Coruja, naquela aberração, inculpado e santa, do seu amor pelos semelhantes, compadecia-se indistintamente de todo e qualquer desgraçado, fosse um faminto ou um assassino, um ladrão ou uma prostituta.
Uma noite, já tarde trabalhava ele, como de costume, na sua secretária, quando ouviu um forte rumor na janela que dava para o telhado, e logo depois aparecer aí uma cabeça de homem, cujos olhos brilhavam como os do tigre.
Espantou-se, mas, tornando a si, disse com toda a calma:
- Entre.
Não era necessário semelhante permissão, porque o homem de olhos de tigre acabava de transpor a janela e deixava-se cair no soalho, ofegante e prostrado de fadiga.
- Deixe-me descansar primeiro, disse, quase sem poder articular as palavras; depois o senhor fará de mim o que entender!...
Só então o Coruja, correndo a uma das janelas da frente, deu pelo motim em que estava a rua. Aquele homem vinha naturalmente perseguido por soldados e talvez pelo povo; e, de telhado em telhado, conseguira chegar até ali.
Pela atitude dos que se aglomeravam lá fora, compreendeu que ninguém desconfiava do destino do fugitivo, pois a atenção deles voltava-se para o telhado de uma casa, donde, a julgar pelas exclamações e pelas pedradas que lançavam, esperavam sem dúvida ver surgir o perseguido.
- Bom, disse o Coruja; não sabem que você está aqui.
E fechou as janelas.
O sujeito vinha completamente esfarrapado, a ponto de se lhe perceber a carne das pernas e do tronco, cheia de contusões e esfoladelas que vertiam sangue.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.