Por Aluísio Azevedo (1891)
E cresciam os desvelos em torno de Ângelo, orçando já pelo fanatismo. Não lhe permitiam olhar para o pátio do convento, onde havia uma criação de galinhas e coelhos. Receavam, e com razão, que o espetáculo dos instintos procriadores dos inocentes bichos despertasse no outro inocente idéias que a igreja reprovava. Escondiam-lhe o próprio sol em dias de grande calor, como se a exibição daquela vida que se derramava sobre a terra para fecundar com a luz germinadora e benéfica, fosse bastante para acordar na carne pálida do seminarista a revolucionária centelha do amor.
Entretanto, Ângelo bem pouco se impressionava com essas cousas, e tinha para todas essas lubrificações com que a natureza estimula a vida, um profundo olhar de indiferença, como se todo ele estivesse perenemente voltado para a fria religião ideal e azul, em que os anjos, únicos que a povoam e habitam, não têm idade nem sexo.
Não era uma criatura humana, não era um moço que ia entrar na adolescência; era a sombra incolor de um obscuro beijo que se fizera carne, e que o crepúsculo da tarde, pedia-lhe que o não deixasse corromper-se à sensual e perturbadora luz do sol.
As vezes, ao cair da noite, quando a natureza parece abrir o peito, para chorar em gotas de orvalho as misteriosas dores do seu parto de todos os dias, ele o pálido enjeitado, que vivia à sombra das paredes sonolentas e úmidas de um claustro, saía a passear pelo maltratado jardim que havia nos fundos do convento. E aí, entre as cheirosas moitas das rosas silvestres, tépidas ainda do derradeiro sol que as dourara no último poente, o seu vulto triste e meigo transparecia, como um sonho de poeta ou um fugitivo devaneio de donzela.
Pobre Ângelo! De tudo que sua alma podia conceber, só uma cousa lhe não esconderam — a Bíblia. E era com o auxílio desse poema quente e cheiroso como os perfumes de Cedar, que ele, o infeliz, enchia de estrelas os seus devaneios de sonhador impúbere.
Nesses momentos, o canto que o seu coração cantava chorando, e chorando lhe fazia agitar da boca as pétalas trementes, era o Cântico dos Cânticos, o livro do poeta rei, amante de todas as mulheres formosas do Oriente.
Ironia dolorosa! Ângelo, o casto, arrebatava-se nas asas da inspiração do poeta de mil amantes!
"Eu durmo e o meu coração vela; eis a voz do meu amado que bate, dizendo:— Abre-me, irmã minha, amiga minha, pomba minha, imaculada minha; porque a minha cabeça está cheia de orvalho, e me estão correndo pelos anéis do cabelo as gotas da noite."
"Eu abri a minha porta ao meu amado, mas ele já se tinha ido, era já passado a outra parte. A minha alma se derreteu, assim que ele falou: busquei-o, mas não o achei; chamei-o, e ele me não respondeu."
E Ângelo, quando estes versetes lhe vinham ao espírito, misturados com os suspiros da vaga saudade, que ele mal definia e em que mal acreditava, caía em fundas cismas, para as quais só havia uma consolação: — escrever. Não versos, desses que o público exige dos poetas mundanos, porque Ângelo não conhecia regras de arte, mas lançava sobre o papel frases como as que lia no livro de Salomão, ao correr da pena, e impregnados da quente virgindade de sua alma.
Quem roubasse da escura cela as tiras de papel, esquecidas sobre a tosca mesa de pinho, leria nas trêmulas linhas, aí traçadas todas as noites com mão nervosa, estranhos pensamentos como os que foram o capítulo a seguir.
CAPÍTULO IV
Vem! Que te chamo!
"Amado da minha alma, aponta-me onde é que apascentas o teu gado, onde te encostas pelo meio-dia, para que não entre eu a andar feito uma vagabunda atrás dos rebanhos dos teus companheiros.
"O meu amado é para mim como um ramilhete de mirra. Ele morrerá entre meus peitos.
"Meu amado, vem comigo pelos campos, dá-me a tua mão; que eu perfume nela os meus cabelos e que eu sorva tremente o cheiro da tua boca, como a cabra montesa que morde os lírios da ladeira.
"Tu és belo e forte como o cedro, suave como a ribeira, e tua voz é como o gemido das pombas.
"As tuas faces têm toda a maravilha de um prado iluminado por dois sóis, e onde os meus beijos, como um rebanho, descansam à sombra dos teus cabelos.
"Vem, amado meu do meu coração, que eu por ti definho de amor e morro de tristeza.
"O amado do meu coração é bonito que nem essa cabra arisca, que grimpa à tardinha pelos escaldados outeiros sem relva, e que de noite e de manhã a gente não bispa mais. ele é como o veadinho branco, que corre mais depressa e se some, se lhe querem pôr a mão em cima. ele é como aquilo que nós mais queremos, e que não está dentro dos nossos braços e junto dos nossos lábios.
"Mas não, alma minha mentirosa, ei-lo que ali está ele, todo amoroso e rubicundo, posto de pé por detrás da parede do meu quarto, olhando o meu leito pelas frestas da janela, chorando de amor e estendendo a vista dos seus olhos por entre as gelosias.
"Lavei os meus pés assentada no meu leito. Como os hei de sujar agora?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.