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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Custou­lhe obter aquela gente prostrada por dois dias de festa.

Quatro homens atiraram­se à unha a Leonardo, como a um touro: o insano, porém não largava dos dentes a espádua esquerda do rival. Então Gaspar, que acabava de abrir o seu portátil estojo de cirurgia, despejou no lenço o conteúdo de um frasquinho de prata que tirou dele, e conseguindo colar contra o nariz e a boca do furioso o pano ensopado. Leonardo acabou por fechar os olhos e deixar­se cair exânime nos braços dos que o detinham.

— Carreguem com ele para lugar seguro, disse o operador; donde não possa fugir quando voltar a si. E tratemos agora destes!

Estendeu­se a Gabriel sobre um divã, e carregou­se com Ambrosina para o seu infeliz e faustoso leito conjugal. A desditosa noiva continuava estarrecida e banhada em sangue.

Gaspar pediu pontos falsos, trapos de linho, todos os recursos desse gênero que houvesse em casa; assentou­se expeditamente ao lado da cama, arregaçando as mangas, e pôs­se a observar atentamente a ferida da enferma.

Só nessa ocasião apareceu na alcova o pai da noiva.

Fora de si e quase sem poder falar, perguntava o comendador muito aflito que estranha e grande desgraça havia sucedido à sua pobre filha; mas dando com Gaspar ao lado dela, a auscultar­lhe o colo, estacou, exclamando fulminado:

— O Médico Misterioso?!

E rugiu de cólera.

Gaspar, sem largar de mão o que fazia, olhou para ele de esguelha, e sacudiu os ombros.

— O filho do coronel Pinto Leite em minha casa?! bramiu Moscoso, cerrando os punhos. Saia daqui, senhor! saia imediatamente, ou o farei despejar lá fora pelos meus escravos!

Gaspar, ainda sem largar de mão a desfalecida, respondeu com toda a calma:

— Sim, mas deixe­me primeiro cumprir com o meu dever profissional, medicando estes dois infelizes; uma é sua filha, e outro é a quem deve ela a vida, à custa do estado em que o vê... Há depois tempo de sobra para o comendador enxotar­me de sua casa uma vez por todas...

III

ASCENDENTES

O comendador Moscoso não se podia conformar com a idéia de que ali estivesse, debaixo de suas telhas e no seio de sua família, o filho do homem a quem ele mais odiara no mundo, do homem, pelo qual fizera verdadeiros sacrifícios para vingar­se, e a quem devia as duas mais penosas cenas de toda a sua vida — o filho do coronel Pinto Leite.

Como há de ver o leitor lá para diante, havia, pouco antes do casamento de Ambrosina, sofrido o comendador das mãos do coronel, no meio do maior escândalo social, a maior afronta que se pode fazer a um inimigo.

Todavia, o coronel Pinto Leite fora sempre um modelo de franqueza e de generosidade. A vida militar dera­lhe à fisionomia e às maneiras certo cunho de desabrida aspereza, mas ao mesmo tempo lhe temperara o caráter com essa bondade, natural e seca, que moralmente distingue, dos materialistas sensuais, ávidos e fracos, os homens castos, sentimentais e fortes.

A história do velho ódio que lhe tributava o comendador vinha de longe, e só poderá ser bem compreendida com uma rápida exposição dos traços gerais da vida do coronel.

Pinto Leite, aos vinte anos, como simples alferes, fazia parte das aventurosas expedições a São Paulo e Minas, quando o Brasil, ainda estremunhando com a Independência, palpitava nas lutas militares e políticas, que depois firmaram definitivamente a sua nacionalidade. Fez carreira pelo valor, pela sisudez de caráter e leal cumprimento do dever. Ainda muito moço já era capitão e desempenhava os mais honrosos cargos de confiança do governo regencial.

Foi por esse tempo que, em campanha nas fronteiras rio­grandenses, se enamorou da filha de um estancieiro, e no intervalo de dois combates se casou com ela. Deste consórcio nasceram primeiro dois filhos gêmeos: Ana e Gaspar, e cinco anos depois falecia em Uruguai a infeliz mãe, por ocasião de dar à luz mais uma filha: Virgínia.

A situação política do país havia mudado inteiramente com a precoce e forçada maioridade do príncipe D. Pedro II, que mal acabava de completar quinze anos, e o soldado, vendo­se ao cabo da guerra preterido por bisonhos e engravatados filhotes do novo governo, e de mais a mais viúvo, enfermo de inúteis e gloriosas feridas, só por ele próprio ainda lembradas, e sobrecarregado com a responsabilidade da educação de três filhos, pediu e obteve reforma no posto de coronel, capitalizou o que tinha, e transferiu­se definitivamente para a Corte.

Só então, pela primeira vez na vida, desfrutou paz e estabilidade. Os bens adquiridos davam­lhe para viver decentemente; e quanto às suas ambições, essas, pobre delas! quedariam, talvez para sempre, sepultadas na bainha com a sua desiludida espada de reformado.

(continua...)

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