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#Contos#Literatura Brasileira

O pai

Por Machado de Assis (1886)

Nesta hipocrisia de dor, durante o dia, e neste desafogo do coração durante a noite, passou Emília os primeiros quinze dias depois da partida de Valentim. No fim de quinze dias chegou a primeira carta de Valentim. Era uma ladainha de mil protestos de que não se esquecera de ambos, e uma promessa formal que no fim do mês estaria de volta.

Esta carta foi lida, relida e comentada pela filha de Vicente.

Vicente, mais contente com essa carta pelo efeito salutar que produzira em Emília, resolveu fazer o que pudesse para acelerar o tempo e tornar menos sensível a ausência de Valentim.

Multiplicou e inventou passeios, visitas, jantares, distrações de toda a natureza. Este meio produziu algum efeito. Os outros quinze dias correram mais depressa, e Emília chegou alegre ao último dia do mês da fatal separação.

Nesse dia devia chegar exatamente o vapor que trazia Valentim. Levantou-se a moça mais alegre e viva. Tinham-lhe voltado as cores às faces, a luz nos olhos. Era outra. E para ela os objetos exteriores, que até então tinham conservado um aspecto lúgubre,

eram também outros. Tudo se fez risonho como o sol, que nesse dia apareceu mais vivificador.

Vicente levantou-se, abraçou a filha e preparou-se para ir a bordo buscar Valentim. Emília suplicou-lhe que se não demorasse por motivo algum; que viesse logo, mal desembarcassem.

Vicente saiu depois de fazer esta promessa à filha. Emília ficou ansiosa esperando o pai e o noivo.

Infeliz. Daí a uma hora voltava o pai, triste, cabisbaixo, só. O noivo não o acompanhava.

— E ele, meu pai?

— Não veio.

— Não veio?

— Não.

— Nem uma carta?

— Nada. Mas é ainda cedo; pode haver cartas; porém mais tarde... É natural que escrevesse, é mesmo certo. Esperemos.

Emília desfez-se em prantos.

Mas Vicente consolou-a dizendo que tudo podia ter explicação; que naturalmente a missão a que fora Valentim o explicasse, e só daí a dias o pudesse fazer. Esperaram uma carta de explicações, um, dois, três, cinco e dez dias: nada. — Nada, meu pai! Nem uma carta! dizia ela. Ele não me ama.

Vicente sofria vendo a dor de Emília. Não podia convencer pelo raciocínio a uma mulher que se dirigia pelo sentimento. Preferiu deixá-la desabafar e escrever a Valentim, ao mesmo tempo que procurava informar-se, como empregado público, dos motivos que teriam demorado Valentim na província.

A carta de Vicente contava tudo o que se passara, o desespero e a dor de Emília vendo se malograda, como ele próprio, na expectativa de ver chegar Valentim. Expedida a carta, Vicente procurou indagar as razões poderosas que tinham demorado o noivo de sua filha; mas desde as primeiras tentativas viu logo que não se lhe seria fácil entrar no conhecimento desses motivos atenta a gravidade da questão, e a gravidade estava no segredo guardado pelo próprio mensageiro. Todavia uma consideração se apresentou ao espírito de Vicente: a missão, por grave que fosse, não era política; o ministro podia, sem entrar na explicação por menor dessa viagem, dizer-lhe se Valentim voltava ou não cedo.

Quando se resolveu definitivamente a ir ao ministro e dizer-lhe, se necessário fosse, as razões de seu passo, chegou novo vapor e não trouxe carta alguma em resposta à escrita por Vicente.

Diante desse fato Vicente não hesitou.

Foi ao ministro.

Não era esse o mesmo chefe da repartição em que Vicente era empregado, mas não era absolutamente estranho ao velho pai, por já ter servido na pasta correspondente à sua repartição.

Vicente declarou-lhe os motivos que o levavam, e esperou, adiantando palavra de honra, que o ministro lhe dissesse qual a demora de Valentim.

O ministro pareceu não perceber a pergunta e pediu que ele a repetisse mas nem depois da repetição ficou mais instruído.

O ministro não só não tinha prometido nada a Valentim, como até nem o conhecia. Vicente enfiou.

O caso parecia-lhe tão extraordinário que não quis acreditar em seus próprios ouvidos. Mas o ministro repetiu o que dissera e deu-lhe palavra de honra e que dizia a verdade. Vicente despediu-se do ministro e saiu.

Que iria dizer a sua filha? Como dar-lhe parte do ocorrido? Como evitar os perigos que já se lhe antolhavam nesta revelação?

Vicente hesitou, e caminhando para sua casa foi ruminando mil projetos, a ver qual era melhor para sair desta dificuldade.

Mas na confusão que naturalmente estas idéias lhe traziam, Vicente fixou o espírito no ponto principal da questão: a perfídia de Valentim.

Essa perfídia não carecia de provas. Estava patente, clara, evidente. Valentim tinha usado de uma fraude para enganar Emília. Ou, se tinha motivo de sair, quis aproveitar uma mentira, para mais a salvo poder escapar às promessas anteriores.

Tudo isso é evidente; Vicente via em toda a nudez a triste situação em que ficava colocado.

As circunstâncias contribuíam para aumentar a evidência dos fatos; o silêncio, o anúncio mentiroso da próxima chegada, tudo.

Fazendo todas estas reflexões, Vicente chegou à porta de casa.

(continua...)

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