Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Um dos filhos da pobre mulher a quem soccorremos, tem estado quasi não quasi a fazer viagem ; hontem fui fazer-lhe a rainha visita ás sete e meia horas da noite ; até então tinha lá ido ás sete, oito, nove, dez horas certas ; na sextafeira comecei a fazer as minhas visitas ás meias horas, a ver se me encontrava com a bella da bolsa de seda. Entrei, e logo pelo suave aroma que rescendia na sala, conheci que a desconhecida havia epouco d'alli sahíra; não me animei a perguntar por ella, porque vi a pobre mãe chegar á sala e entrar chorando na alcova, levando na cabeça uma bacia de pés com agua quasi fervendo.
— Que ha ? perguntei.
— O meu filhinho mais novo que acaba de cahir com o cholera.
Tive pena da triste mãe ; atirei com a casaca para um lado, arregacei as mangas da camisa e fui dar o escalda-pés á creança. O meu anjo da caridade tinha-me ensinado a ser caridoso.
A mãe resistio, e eu teimei e venci: já estava terminado o pediluvio, quando senti os passos de alguém que fugia : olhei para traz .. era a bella mysteriosa, que sahindo do interior da casa, desapparecia pela porta da rua, atirando sobre mim um papel.
Em mangas de camisa, como estava, não podia seguil-a pela rua ; apanhei o papel suspirando, emquanto a infeliz mãe envolvia o filhinho em colchas de lã.
O papel continha um cartuxinho com uma violeta, symbolo da modéstia, e duas linhas com lettras escriptas provavelmente com a mão esquerda, que dizião assim : « a caridade não se ostenta; por isso me escondo : tu me vês todos os dias, e não me reconheces, nem me has de reconhecer ; amas-me, e eu te amo. »
Fiquei louco de alegria; não dormi toda a noite : fui obrigado a ouvir os gracejos e zom-barias de minha irmã desde o almoço até ás onze horas da manhã, e fiel á minha promessa ao meio-dia te appareci.
— Mas ficas ainda em divida.
— Sabbado espero pagar-te toda a minha conta.
— Excellentemente ! E amanhã ?...
— Amanhã terei a minha bolsa de seda, e não me fiarei mais em velhas de mantilha.
Dizendo isto, Constancio tomou o chapéo e sahio.
III
Confiado na pontualidade do meu amigo Constancio, eu esperava pêlo sabbado ao meiodia para receber a continuação ou a conclusão do romance da Bolsa de seda, quando casualmente encontrei esse namorado da bella mysteriosa dous dias antes d'aquelle em que contava vêl-o apparecer.
Sabe-se que ultimamente alguns observadores curiosos da capital descobrirão no céo uma estrella brilhante áhora em que se parte o dia, e acharão n'esse facto uma novidade, que os encanta.
Uma autoridade competente declarou que a estrella que se via era o planeta Venus, e que não havia nada de extraordinário no pheno-meno;mas a despeito de tal declaração não diminuio o numero dos curiosos, que se entre-gão com vivo interesse á observação da estrella do meio-dia
E quinta-feira, ao dar o sino de S. Francisco de Paula o signal do meio-dia, passava eu pela Praga da Constituição, e eis que vejo uma columna cerrada de improvisados astrônomos de olhos fitos no céo.
Approximei-me, e qual não foi a minha surpreza, quando descobri no meio dos curiosos o meu amigo Constando !
Cheguei-me a elle e chamei-o ! tempo perdido!... o rapaz estava com o juizo acima do mundo da lua.
— Diabo ! exclamou emfim; atrapalhaste-me no instante mesmo em que Venus começava a brincar com as meninas dos meus olhos !
— Constando ! pois assim te deixas prender pelos encantos de uma Venus que nunca ha de ser tua, e esquecendo talvez a bella mysteriosa?...
Apenas pronunciei as palavras bella mysteriosa, vi o meu amigo Constando mudar de feição e ficar assim com uma cara de noivo logrado, ministro demittido, candidato mamado, actor pateado, que vem tudo a dar na mesma cara, Comprehendi logo que o amante da bella mysteriosa tinha feito fiasco.
— Constancio, disse-lhe eu, adivinho que chegaste ao desfecho do teu romance.
Fez-me com a cabeça um signal affirmativo.
— Pois então faze de conta que hoje é sabbado, e vamos ao caso.
— Infandum, regina, jubes renovare...
Não o deixei acabar o verso de Virgilio.
— Tenho a tua palavra : paga-me o que me deves.
— Pois sim.... estou preso pela minha palavra... não ha remédio...
— Vamos a isso : que tens a dizer-me ?...
— Primeiro que tudo digo-te o que já te tenho dito dez vezes : sou um tolo !
— Sim ; mas tens consciência : é uma
consolação ; porém a historia, a historia ?..,
— Vaesrir... vaes zombar de mim !
— Como ?... pois a bella mysteriosa não disse á velha e depois não te escreveu n'um bilhete que te amava extremosamente ?...
— Disse, e até fallou a verdade.
— Pois que mais queres, coração insaciável ?
Constancio soltou um suspiro magoado.
— Ah ! já sei : a tua bella mysteriosa é alguma velha feia, e...
— Ao contrario é moça, e bella.
— Já a viste ?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.