Por Martins Pena (1846)
PEDESTRE, no mesmo – ... para conheceres quanto te amo...
ANACLETA, no mesmo – ... para conheceres quanto te amo...
PEDESTRE, no mesmo – ... e quanto desprezo o burro do teu marido.”
ANACLETA, no mesmo – ... e quanto desprezo o burro do teu marido.
PEDESTRE, puxando-a para a frente do tablado, encruzando os braços e com grande tranqüilidade – Que tens que dizer?
ANACLETA – Tudo me persegue...
PEDESTRE – E te crimina. (Mudando de voz:) Olha para mim! Reconhecesme?
ANACLETA – Oh, para que deixei eu o Recolhimento para seguir este homem?
PEDESTRE – Já fizeste as tuas orações?
ANACLETA – Que queres tu dizer?
PEDESTRE – Recomenda tua alma a Deus, que eu esperarei um instante.
(Passeia.)
ANACLETA – Oh, André, André, piedade! Escuta-me! (Aqui entra Balbina com uma xícara de café.)
BALBINA – Está o café, meu pai. (Pedestre dá com a mão na xícara e a atira pelos ares.) Ah!
PEDESTRE, voltando-se para Anacleta e desembainhando a espada – Estás pronta?
ANACLETA, agarrando-se com Balbina – Balbina! Balbina!
BALBINA – Ai, ai!
PEDESTRE puxa Anacleta pelo braço, a qual arrasta Balbina consigo – Tu vais morrer, mulher infiel, traidora!
ANACLETA, gritando – Quem me socorre, quem me socorre?
BALBINA, ao mesmo tempo – Meu pai, meu pai!
PEDESTRE – Ninguém agora te arrancaria de minhas mãos! Quero vingar-me! Morre!
ALEXANDRE, do buraco da porta – Tenha mão!
PEDESTRE, ao ouvir esta voz, volta-se e deixa o braço de Anacleta – Ah, negro, diabo!
ANACLETA, vendo-se livre, corre para dentro – Socorro!
PEDESTRE, conhecendo que foi o negro quem falou, segue a Anacleta, furioso – Espera, espera! (Saem ambos de cena.)
BALBINA – Meu pai, meu pai!
ALEXANDRE, do buraco da porta – Psiu, psiu! Balbina, vem cá!
PAULINO, do armário – O que será de mim? Misericórdia, que mortandade!
BALBINA, correndo para Alexandre – Fuja, fuja; senão, mata-me também!
ALEXANDRE, do buraco – Abra a porta, que fugiremos juntos. Já não quero ficar aqui nem um instante.
BALBINA – Ele tirou a chave!
PAULINO, dentro do armário – Olé, o negro quer fugir com a moça! Aonde me meti eu!
ALEXANDRE – Balbina, Balbina, o que há de ser de nós? Quem mandou-me cá vir? Mas eu te amo tanto!
PAULINO, do armário – O caso é esse, agora percebo: disfarçou-se, pintou-se de negro para cá entrar. Olhem que menino! Se eu não estivesse com tanto medo, ria-me do logro que levou o pedestre. (Ouve-se dentro gritos e bulha, como de uma pessoa que rola pelas escadas abaixo.)
BALB1NA – Meu Deus, ele matou-a!
ALEXANDRE, do buraco – Não é possível!
PAULINO, no armário, fechando a porta – Eu desmaio... Quem me acode?
ALEXANDRE – Vai ver, vai ver, já não posso estar aqui... As pernas trememme... (Sai do buraco.)
CENA IX
Entra o PEDESTRE, ainda com a espada na [mão] e muito pálido e assustado.
BALBINA – Meu pai, meu pai, o que tem? Tão pálido! Responda! E minha madrasta?
PEDESTRE, apontando para dentro, todo trêmulo – Morta!
BALBINA – Morta! Meu Deus! (Corre para dentro.)
PAULINO, à parte, no armário – Um assassinato! E eu sou a causa, oh!
PEDESTRE, como assustado – Ela me enganava... Está morta! Morta! E agora? Enterra-se... e fico descansado. Sim, descansado, tranqüilo. Amanhã perguntar-me-ão por ela e eu... Oh, talvez fizesse mal... Mal? Se ela estivesse inocente... Inocente... Oh! (Com ternura:) Anacleta, Anacleta! Mas ela traiu-me, fiz muito bem... O homem deve vingar-se... (Com ternura:) Anacleta! Vem gente...
BALBINA, entrando – Meu pai, meu pai, talvez ainda seja tempo de a salvar! Ela rolou pelas escadas abaixo e lá está caída, fria e sem sentidos... Acuda-a!
PEDESTRE – Não, ela traiu-me; esqueceu-se do meu nome, do meu amor e de minha confiança.
BALBINA – Venha, ou vá chamar um médico!
PEDESTRE, com voz terrível – Não!
BALBINA – Meu Deus, compadecei-vos de nós! (Sai.)
PEDESTRE – Morta, morta, morta! Talvez não fosse culpada; talvez, quem sabe? Que abismo! Inocente! Mas a carta, a carta? Teu marido é um animal... Animal! Oh, se tivesse o indigno sedutor debaixo dos pés, se o visse tremendo, enfiado nesta espada, ah! seria feliz! Pérfida! Insultado, desonrado! Oh, quisera nadar em sangue! Pérfida! (Passeia agitado pela sala.) Esta escada quebrada... Desceria ele por aqui? Viria pelos telhados? Ah, (vendo o boné) um boné! Um boné em minha casa? Um boné! Querem-na mais clara? Mas um boné por si só é inocente, um boné nada vale... A cabeça que ele cobria é que é tudo. Procuremos a cabeça. (Principia a procurar pela sala, furioso) Não me há de escapar. (Dirige-se para o armário e o abre.) Oh, cá está!
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.