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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Então Inhá também gosta dele? 

- Também! 

- Ah! 

- Tanto como de você, nhô Miguel! 

- Muito obrigado! retorquiu Miguel com um modo seco. 

- Por isso agora ficou aí todo amuado? 

- Até logo; já me vou. 

- Não vai, que eu não quero! Exclamou a menina com despeito, e impedindo-lhe o passo. 

- Então voltemos para a casa. 

  Inhá aproximou-se do companheiro e o envolveu de um olhar carinhoso.  

- Olhe! se você não vier, Linda fica triste, coitadinha, tão bonita, com aqueles olhos tão ternos, que ela tem, de pomba-rola; e aquele rostinho de redoma, que é mesmo uma santa quando se ri no céu. Venha, eu lhe peço, meu bom Miguel. 

  Fascinado estava o Miguel, mas não pela imagem que lhe descrevia Inhá, senão pelo original que tinha diante de si, e o embebia na meiguice de seu olhar e na ternura de seu carinho. 

- Mas eu não gosto dela, balbuciou o moço. 

  Pois não fale mais comigo, disse a menina arrufada. 

- Escute, Inhá! 

- Vem? 

  O rapaz hesitava. 

- Você promete?... 

- Não prometo nada. 

- Se Afonso quiser brincar com você... 

- Eu hei de brincar com ele, muito, muito, muito! 

  Cada um destes advérbios, a menina o acentuou batendo com o tacão no chão. 

- Então não vou! 

- Não venha! Quem lhe pede? 

  Caminhou ela direito à tronqueira; e entrou na fazenda. 


IV 

Monjolo 

 

  Cerca de uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba, e à margem deste último rio, estava situada a fazenda das Palmas. 

  Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que então contava a província de São Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos campos de Ipu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais. Mas dificilmente se encontram já aqueles gigantes da selva brasileira, cujos troncos enormes deram as grandes canoas, que serviram à exploração de Mato Grosso. Daí partiam pelo caminho d’água as expedições que os arrojados paulistas levavam às regiões desconhecidas do Cuiabá, descortinando o deserto, e rasgando as entranhas da terra virgem, para arrancar-lhe as fezes, que o mundo chama ourn e comunga como a verdadeira hóstia. 

  No ano de 1846 era de recente fundação a fazenda das Palmas, que Luís Galvão, seu proprietário, recebera de herança paterna, ainda nas condições de simples situação, com um velho casebre de caipira, dois cafezais e alguma pouca roça. 

  Tinha Luís Galvão o gênio empreendedor e gosto para a lavoura; casando com a filha de um capitalista de Campinas, que lhe trouxe de dote algumas dezenas de contos de réis, além do crédito, pode ele, dando alas à sua atividade, fundar uma importante fazenda, que a muitos respeitos servia de norma e escola ao agricultor brasileiro.  

Ao passo que ia se adiantando a lavra das terras, erguia-se na chapada fronteira ao rio uma bela casa de morada em dois lances abarracados, com um pequeno mirante no centro, sobreposto à larga portada; esta abria para o patamar, ladrilhado, de uma pequena escada de seis degraus, que descia ao terreiro. 

(continua...)

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