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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Os dois cavaleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavam silenciosos um a par do outro. 

Álvaro às vezes enfiava um olhar pelo caminho como para medir a distancia que ainda tinham de percorrer, e outras vezes parecia pensativo e preocupado. 

Nestas ocasiões, o italiano lançava sobre ele um olhar a furto, cheio de malícia e ironia; depois continuava a assobiar entredentes uma cançoneta de condottiere, de quem ele apresentava o verdadeiro tipo. 

Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o sorriso desdenhoso fazia brilhar a alvura de seus dentes; olhos vivos, a fronte larga, descoberta pelo chapéu desabado que caía sobre o ombro; alta estatura, e uma constituição forte, ágil e musculosa, eram os principais traços deste aventureiro. 

A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não oferecia mais caminho, e tomara por uma estreita picada aberta na mata. 

Apesar de ser pouco mais de duas horas, o crepúsculo reinava nas profundas e sombrias abóbadas de verdura: a luz, coando entre a espessa folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma réstia de sol penetrava nesse templo da criação, ao qual serviam de colunas os troncos seculares dos acaris e araribás. 

O silêncio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus ecos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas interrompido um momento pelo passo dos animais, que faziam estalar as folhas secas. 

Parecia que deviam ser seis horas da tarde, e que o dia caindo envolvia a terra nas sombras pardacentas do ocaso. 

Álvaro de Sá, embora habituado a esta ilusão, não pôde deixar de sobressaltar-se um instante, em que, saindo da sua meditação, viu-se de repente no meio do claro-escuro da floresta. 

Involuntariamente ergueu a cabeça para ver se através da cúpula de verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma centelha de luz que lhe indicasse a hora. 

Loredano não pôde reprimir a risada sardônica que lhe veio aos lábios. 

— Não vos dê cuidado, sr. cavalheiro, antes de seis horas li estaremos; sou eu que vo-lo digo. O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho. 

— Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma coisa, mas falta-vos o animo de a proferir. Uma vez por todas, falai abertamente, e Deus vos guarde de tocar em objetos que são sagrados. 

Os olhos do italiano lançaram uma faisca; mas o seu rosto conservou-se calmo e sereno. 

— Bem sabeis que vos devo obediência, sr. cavalheiro, e não faltarei dela. Desejais que fale claramente, e a mim me parece que nada do que tenho dito pode ser mais claro do que é. 

— Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para outros. 

— Ora dizei-me, sr. cavalheiro; não vos parece claro, à vista do que me ouvistes, que adivinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa possível? 

— Quanto a isto, já vos confessei eu; não há pois grande mérito em adivinhar. 

— Não vos parece claro também que observei haverdes feito esta expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias eis-nos ao cabo dela? 

— Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a opor. 

— Não decerto; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com satisfação, quando o coração nele se interessa. 

— Sr. Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e colhendo as rédeas. 

O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continuou: 

— Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem; foi de D. Antônio de Mariz, sem dúvida? 

— Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me, replicou o moço com arrogância. 

— Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano cortesmente, partistes do Paquequer em uma segunda-feira, quando o dia designado era um domingo. 

— Ah! também reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de despeito.

— Reparo em tudo, sr. cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda, que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente antes do domingo. 

— E não observastes mais nada? perguntou Álvaro com a voz trêmula e fazendo um esforço para conter-se. 

— Não me escapou também uma pequena circunstância de que já vos falei.

— E qual é ela, se vos praz? 

— Oh! não vale a pena repetir: é coisa de somenos. 

— Dizei sempre, Sr. Loredano; nada é perdido entre dois homens que se entendem, replicou Álvaro com um olhar de ameaça. 

— Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de D. Antônio, e o italiano carregou nessa palavra, manda-vos estar no Paquequer um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece. 

(continua...)

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