Por José de Alencar (1860)
GOMES - Preferes que a arraste à vergonha?... Não sentes que vais perder teu pai?... Escolhe! Vê-lo infame nas galés, ou chorá-lo morto, porém honrado.
ELISA - Mas ainda pode salvar-se!... Não há de ser condenado, não!
GOM ES - Refleti, Elisa. Que defesa tenho eu?... A minha palavra. E isto basta? Sem dinheiro, sem amigos?... Só me resta uma esperança; e é que esse homem não cumpra o que disse. Mas essa... não acredito nela.
ELISA - Por quê?... Esse homem deve ter um coração! Eu lhe suplicarei de joelhos.
GOMES - Tu sabes se te quero, Elisa, e com que extremos te amo. A única dor que levo desta vida é deixar-te!... Uma menina de 18 anos, sem pai, sem mãe, ao desamparo, é um anjo perdido neste mundo torpe. Toda a sua virtude não basta às vezes para defendê-la. Sucumbe à necessidade implacável..
ELISA - E quer me abandonar!
GOMES - Sou eu que te abandono, Elisa, ou é a fatalidade que me arranca de teus braços?
ELISA - Deus se há de condoer de nós!
GOMES - Se te sentes com força de lutar, minha filha, talvez a felicidade te depare um homem que te ame, e proteja a tua orfandade.
ELISA - E por que não nos protegerá a ambos?
GOMES - Eu já não preciso senão do perdão do Senhor e do teu. - Se, porém, te sentes fraca... Não te aconselho... Não digo que o faças... Segue o impulso de tua alma...
ELISA - Acabe, meu pai!
GOMES - O que ficar deste vidro...
ELISA - Ah!
GOMES - É a única herança de teu pai, Elisa.
ELISA - Oh! Sim! Morremos juntos!
GOMES - Não! Foi uma loucura!... Esquece o que te disse! Tu ainda podes ser feliz, minha filha!...
ATO SEGUNDO
Em casa de JORGE. Sala simples, mas elegante.
CENA PRIMEIRA
JOANA e VICENTE
VICENTE - Como vai isto por cá?
JOANA - Oh! Bilro!... Vamos indo, como Deus é servido!
VICENTE - Há saúde e patacos, é o que se quer.
JOANA - Saúde não falta, não, Bilro! No mais vai-se vivendo, como se pode.
VICENTE - Olhe, Sra. Joana... Há muito que estou para lhe pedir uma coisa.
JOANA - Sra. Joana!... Estás doido, Bilro?
VICENTE - Não, mas é que... Sim... Bem vê que tenho hoje uma posição... E este modo de chamar a gente de Bilro...
JOANA (rindo) - Ah! ah! ah!... Então porque és pedestre, ou meirinho... Não sei o quê!
VICENTE - Menos isso!... Oficial de justiça!
JOANA - Pois que seja... Oficial da justiça, ou da injustiça... Porque és isto, julgas que ficas desonrado se eu te chamar de Bilro?... Ora, não vejam só este meu senhor! Que figurão!... V.
Sa. faz obséquio... ou V. Exa.?... Queira ter a bondade... Por quem é... Sr. Vicente...
VICENTE - Romão... Romão...
JOANA - Sr. Vicente Romão. Queira desculpar!... sem mais aquela.
VICENTE - Está zombando.
JOANA - ~ Não é assim que deve tratá-lo?
VICENTE - Toma o recado na escada... Eu por mim não me importava; mas falam.
JOANA - Pois olha! Cá comigo está se ninando!... Eu te conheci assim tamaninho, já era rapariga, mucama de minha senhora moça, que Deus tem, e foi sempre Bilro para lá, tia Joana para cá. Se quiseres há de ser o mesmo... senão, passar bem. Ninguém há de morrer por isso.
VICENTE - Mas, Joana...
JOANA - Tia Joana!
VICENTE - Está bom, para fazer-lhe a vontade... Tia Joana! Não era melhor que a gente se tratasse como os outros?...
JOANA - Não sei se é melhor, se não... Quando te vir hei de chimpar-te com o Bilro na venta.
VICENTE - Não tem graça nenhuma.
JOANA - Se te parecer, não responde: é o mesmo.
VICENTE - Em teima ninguém lhe ganha!... Não vê que é preciso a gente dar-se a respeito.
JOANA - Dá-te a respeito lá com as outras. Comigo estás bem aviado.
VICENTE - Pois é isto que eu quero! Não me entendeu... Diante dos outros a senhora... a tia Joana que lhe custa me chamar de Vicente?
JOANA - Diante dos outros?... Pois sim! Mas olha que é Vicente só!
VICENTE - Vicente Romão... É mais cheio.
JOANA - Uma figa!... Nem Romão, nem senhor! Vicente.
VICENTE - Enfim! Era melhor o nome todo... Não quer! Que se lhe há de fazer!
JOANA - Então não perguntas por nhonhô Jorge?
VICENTE - Ia perguntar; mas Vm....
JOANA - Vm.... Hein... Bilro...
VICENTE - Você me atrapalhou, tia Joana. Como está ele, o Sr. Jorge? Está bom?
JOANA - Bom e crescido que faz gosto... Se tu o vires!
VICENTE - Não há quinze dias que estive com ele.
JOANA - Pois faz sua diferença!. .. Todos os dias parece que fica mais alto e mais sério... Eu acho ele tão bonito, meu Deus!
VICENTE - Pudera não! Você o criou!
JOANA - E tu não achas?
VICENTE- Eu não! E é preciso que diga.
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.