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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

—Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino. força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidé1is Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos. 

A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade: 

—A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles; é não saber o que ele vale, o que ele pensa o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber porque nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, - por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado. 

Replico eu:

—Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições... 

—As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: "consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação"; mas   "consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%". A opinião pública é uma metáfora sem base; há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: "Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem..." dirá uma coisa extremamente sensata. 

E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos e ele tem o recenseamento. 

IV 

Agora uma página de luto. Nem tudo foram flores e alegrias durante a quinzena. As musas receberam um golpe cruel. 

Veio do Norte a notícia de haver falecido o Dr. Gentil Homem de Almeida Braga. Todos os homens de gosto e cultores de letras pátrias sentiram o desaparecimento desse notabilíssimo que o destino fez nascer na pátria de Gonçalves Dias para no-lo roubar com a mesma idade com que nos arrebatou o grande poeta. 

Poeta também e prosador de elevado merecimento, o Dr. Gentil Homem de Almeida Braga, deixou algumas páginas, —poucas em número, mas verdadeiros títulos, que honram o seu nome e nos fazem lembrar dele. 

O Dr. Gentil Homem nas letras pátrias era conhecido pelo pseudônimo de Flávio Reimar. Com ele assinou belas páginas literárias, como o livro Entre o Céu e a Terra, livro que exprime bem o seu talento original e refletido. Deixou, segundo as folhas do Maranhão, a tradução da Evangelinez, de Longfellow. Deve ser um primor. J. Serra já há meses nos deu na Reforma um excelente espécimen desse trabalho. 

Perdemo-lo; ele foi, prosador e poeta, dormir o sono eterno que já fechou os olhos de Lisboa e Odorico. Guardemos os seus escritos enriqueçamos com eles o pecúlio comum. 

[4] 

[15 setembro] 

ESTE ANO parece que remoçou o aniversário da Independência. Também os aniversários envelhecem ou adoecem, até que se desvanecem ou perecem. O dia 7 por ora está muito criança. 

Houve realmente mais entusiasmo este ano. Uma sociedade nova veio festejara data memorável; e da emulação que houver entre as duas só teremos que lucrar todos nós. 

Nós temos fibra patriótica; mas um estimulante de longe em longe não faz mal a ninguém. Há anos em que as províncias nos levam vantagem nesse particular; e eu creio que isso vem de haver por lá mais pureza de costumes ou não sei que outro motivo. Algum há de haver. Folgo de dizer que este ano não foi assim. As iluminações foram brilhantes, e quanto povo nas ruas, suponho que todos os dez ou doze milhões que nos dá a Repartição de Estatística estavam concentrados nos largos de S. Francisco e da Constituição e ruas adjacentes. Não morreu, nem pode morrer a lembrança do grito do Ipiranga.

II 

Grito do Ipiranga? Isso era bom antes de um nobre amigo, que veio reclamar pela Gazeta de Notícias contra essa lenda de meio século. 

Segundo o ilustrado paulista não houve nem grito nem Ipiranga. 

Houve algumas palavras, entre elas a Independência ou Morte, —as quais todas foram proferidas em lugar diferente das margens do Ipiranga. 

Pondera o meu amigo que não convém, a tão curta distância, desnaturar a verdade dos fatos. 

Ninguém ignora a que estado reduziram a História Romana alguns autores alemães, cuja pena, semelhante a uma picareta, desbastou os inventos de dezoito séculos, não nos deixando mais que uma certa porção de sucessos exatos. 

Vá feito! O tempo decorrido era longo e a tradição estava arraigada como uma idéia fixa. 

Demais, que Numa Pompílio houvesse ou não existido é coisa que não altera sensivelmente a moderna civilização. 

(continua...)

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