Por José de Alencar (1860)
Araújo (baixo a Luís) – Um sujeito está espiando pela rótula.
Carolina (na rótula, baixo e para fora) – Espere!
Araújo (a Luís) – Sabes quem é?
CENA XII
(Os mesmos e Margarida)
Luís – Sei, ela o ama.
Araújo – E tu consentes?
Luís – Que posso fazer? Se o ofendesse ela me odiaria. Antes indiferença.
Carolina – Não era ninguém... O vento...
Luís (a Araújo) – Mente!
Margarida – Aqui tem; foi enxuto a ferro.
Araújo – A senhora é a pérola das engomadeiras. Vou-me vestir; anda, Luís.
Margarida (a Luís) – Estás hoje de folga?
Luís – Não; volto à tipografia.
Margarida – Então quando saíres cerra a porta.
Luís – Sim. Até amanhã minha prima.
Margarida – Tu não vens, Carolina?
Margarida – Já vou, mamãezinha; deixe-me tirar meus grampos.
CENA XIII
(Carolina e Ribeiro)
(Luís saindo, fecha a porta do fundo. Carolina, ficando só, apaga a vela. Ribeiro salta na sala)
Carolina – Meu Deus!...
Ribeiro – Carolina... Onde estás?... Não me queres falar?
Carolina – Cale-se; podem ouvir.
Ribeiro – Por isso mesmo; não esperdicemos estes curtos momentos que estamos sós.
Carolina – Tenho medo.
Ribeiro – De quê? De mim?
Carolina – Não sei!
Ribeiro – Tu não me amas, Carolina! Senão havias de ter confiança em mim; havias de sentir-te feliz como eu.
Carolina – E o meu silêncio aqui não diz tudo? Não engano meu pai para falar-lhe?
Ribeiro – Tu não sabes! O coração duvida sempre da ventura. Dize que me amas. Dize, sim!
Carolina – Para quê?
Ribeiro – Eu te suplico! Já não lhe confessei tantas vezes que lhe...
Ribeiro – Assim não quero. Há de ser: eu te...
Carolina – Eu te amo. Está contente?
Ribeiro – Agora adeus. Até amanhã.
Ribeiro – Separarmo-nos! Depois de estar uma vez perto de ti, de saber que tu me amas? Não, Carolina.
Carolina – Mas é preciso.
Ribeiro – Tu és minha. Vamos viver juntos.
Carolina – Sempre?
Ribeiro – Sempre! sempre juntos!
Carolina – Como?
Ribeiro – Vem comigo; o meu carro nos espera.
Carolina – Fugir!
Ribeiro – Fugir? não; acompanhar aquele que te adora.
Carolina – É impossível!
Ribeiro – Vem, Carolina!
Carolina – Não! Não! Deixe-me!
Ribeiro – Ah! É esta a prova do amor que me tem! Adeus! Esqueça-se de mim.
Nunca mais nos tornaremos a ver.
Carolina – Mas posso abandonar minha mãe? Não posso!
Ribeiro – Eu acharei outras que me amem bastante para me fazerem esse pequeno sacrifício.
Carolina – Outras que não terão suas famílias.
Ribeiro – Mas que terão um coração.
Carolina – E eu não tenho?
Ribeiro – Não parece.
Carolina – Antes não o tivesse.
Ribeiro – Adeus.
Carolina – Até amanhã. Sim?
Ribeiro – Para sempre.
Carolina – Amanhã... Talvez.
Ribeiro – Deve ser hoje ou nunca.
Carolina – E minha mãe?
Ribeiro – É uma separação de alguns dias.
Carolina – Mas ela me perdoará?
Ribeiro – Vendo sua filha feliz...
Carolina – Que dirão minhas amigas?
Ribeiro – Terão inveja de ti.
Carolina – Por quê?
Ribeiro – Porque serás a mais bela moça do Rio de Janeiro.
Carolina – Eu?
Ribeiro – Sim! Tu não nasceste para viver escondida nesta casa, espiando pelas frestas da rótula, e cosendo para a Cruz. Estas mãos não foram feitas para o trabalho, mas para serem beijadas como as mãos de uma rainha.(Beija-lhe as mãos) Estes cabelos não devem ser presos por laços de fitas, mas por flores de diamantes. (Tira os laços de fita e joga-os fora) Só a cambraia e a seda podem roçar sem ofender-te essa pele acetinada.
Carolina – Mas
eu sou pobre!
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.