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#Contos#Literatura Brasileira

Atrás da catedral de Ruão

Por Mário de Andrade (1947)

Era no fim daquela primavera, “et alors, vous comprennez”, Mademoiselle chegara mais resfriada que nunca, o nariz inchara um pouquinho, e com o embrulho esquisito, um cilindro comprido, pajeado cuidadosamente junto ao seio. As perguntas das meninas foram tão insistentes, as suposições tão maliciosas que Mademoiselle precisou confessar. A homeopatia não lhe dava jeito mais ao resfriado, “bronchite” ela insistia, no eufemismo contraído de moça, para evitar de qualquer forma que esses brasileiros falassem em “constipação” pxx! Pois então se lembrara de comprar aquela garrafa de rum, confessou envergonhadíssima, “un tout petit peu!” que ela quase gritava ameaçadora, diante do riso das meninas.

O jogo principiara logo muito esquentado. Estavam as três mais que freudianas, daquele recanto da saleta espiando tantos homens que deviam ser importantes, fazendo tudo o que desejavam. Os “cocktails” passavam, “cock- tails” fortes bem pra homem, Dona Lúcia se recusava a beber. Mas as meninas principiaram tarlatanando cada vez mais audaciosas. Mademoiselle não continha mais ninguém.

— ... vous savez porquoi ils se sont installés au dessus du théatre Santa Helena n’est-ce pas?

— Mais non! Racontez-moi çà.

E Lúcia sem saber onde vai parar:

— Après les spéctacles ils montent au Parti e font de choses affreuses, vous comprennez, n’est-ce pas!

— Ma chère enfant, taissez-vous. Voyons...mais qu’st-ce qu’ils peuvent bien faire alors?

— Vous comprennez, n’est-ce pas! Ils ont fait un trou, Mademoiselle, un énorme trou! Monsieeu le Prémier Sécrétaire s’est mis tout nu sur un énorme plat, et on l’a descendu dans le théatre, vous comprennez ce qui se passait..

— Lúcia, je vous défends de continuer! peremptória, à bout.

— Mais Mademoiselle, c’est qu’ils commencent tous a roucouler!

— Tais-toi! tais-toi! ela espirrava na sua binaridade autoritária atual, imagem derradeira da autoridade que ela não conseguia mais ter sobre aquelas pequenas rabelaisianas da primavera. “Tais-toi! tais-toi!” pulandinho de gozo entre as duas garotas, no desvão da saleta, emborcando a taça de “cocktail”. Dona Lúcia acabara suspeitando alguma coisa de anormal na alegria daquelas três, ordenara às meninas que subissem. E se foram as três para cima, logo calmas na apreensão de algum malfeito grave.

Só agora percebiam que a noite caíra. O relógio antigo do estúdio marcava oito horas. Um susto gélido de brisa entrou pela janela e invadiu Mademoiselle. Atchim, ela espirrou estremecendo. Foi se encurtando muito, ficou pequeninha, quase um nada vivaz de “chair vive”, resumida a uma girândola de espirros em surdina. Teve medo, era muito tarde. Ainda imaginou esperar que a festa acabasse, estava no fim, e pedir a Dona Lúcia que a fizesse acompanhar por qualquer um dos criados de ocasião. Mas ficou logo horrorizada com as audácias dele, decerto quis kidnapá-la, mas os outros passageiros do bonde intervieram, e ele (preferia o que a servira) lhe deu o braço pra descer e a carregou possante, encostando a mão no peito dela, bem no peito. Criou juízo e decidiu ir só.

O bonde felizmente vinha cheio até demais, tinha uns seis passageiros derramados pelos bancos e Mademoiselle, acalentada, se sonha defendida por eles. Se o criado viesse, eles derramavam sangue na luta, bastante sangue. E que coragem deles, que luta feroz! Os defensores bufavam de cólera, os socos caíam, o auto não respeitava o silêncio da noitinha e num momento, o que foi! os bondes de-noite correm tão desabalados pelos bairros, era aquele mesmo tumulto da praça da Sé que a tomava. Seria uma voz? seria o destino? Mademoiselle já mal respira e toca brusco a campainha. O bonde pára com um grito horrível, é um assasinato, aliás, ela corrigiu,: “assassínio” em português. Mademoiselle nem desce, salta, pula, foge, se livrando, faz o quarteirão sem pensar, não há multidão que a buscule, as árvores, as árvores é que a machucam, saem sombras kidnapantes delas, os lampiões fazem “trous, trous”, doloridíssimos no ar desmaiado.

Mademoiselle percebe nítido, mas com uma nitidez inimaginável de tão fatal, que chegou no largo de Santa Cecília. Seguirá reto? É só atravessar o largo pela frente da igreja e, uns cem passos mais, a porta salvadora da pensão... Mademoiselle sabe disso, decide isso, quer decidir isso, mas agora é tarde, os passos a contrariam e a conduzem atrás da catedral de Ruão. É um silêncio de crime, o bairro dorme em paz burguesa. Mas tinha que suceder. Duma das ruas que desembocam na curva da abside, saltam dois homens, “avec une barbe?” não viu bem, mas “très louches”, que se atiram a persegui-la.

(continua...)

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