Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Eu?
― Sim: parece-lhe que ela doidejou e lhe fez alguma patifaria?
― Eu sei cá, homem!... Vejo isto!... Ah! Esquecia-me de dizer que ela diz que deu o dinheiro aos pobres...
― Bem me fio eu nisso! Essa não amolo eu! – refutou Pantaleão, bascolejando nas queixadas um riso galego. – Aos pobres!...
― Também eu não a engulo! – concordou o irmão de misericórdia. – Que diga o nome dos pobres! Sim! queremos saber quem são os pobres. Física e moralmente falando, se ela o não disser, está provado o crime.
― Isso está! – obtemperou Atanásio. – E cá, se a tratantada fosse comigo, era negócio feito, percebe você?
― Você que faria? – perguntou Fialho.
― Eu?! Eu?! Então você ainda me não conhece? Eu cá era dois pontapés, e rua, percebe você?
― Isso não são modos! – obstou Pantaleão Mendes Guimarães. – Amigo Fialho, você averigüe esse caso com vagar.
― Não tenho que averiguar! – recalcitrou o marido de Ângela. – É isto que lhes digo. Gastou o dinheiro e não diz em quê.
― Então, convento com ela! – alvitrou o prudente Guimarães. – Um homem de créditos faz isto. Os amigos digam agora o que entenderem.
― Eu – opinou Joaquim José Bernardo, descascando os rebordos das ventas infectas – física e moralmente falando, também vou para aí, atendendo a que é melhor não dar escândalo. Você administra-lhe de comer e beber no convento, e não quer mais saber dela.
― E se lhe puser demanda a mulher?! – lembrou Atanásio.
― Demanda? Ora essa!... – acudiu Joaquim Bernardo. – Demanda?
― Sim; vamos que ela pede metade da fortuna, ou o dote de trinta contos com que o amigo Fialho a dotou?
― O amigo Fialho não tem nada – respondeu triunfantemente o árbitro. – Tudo que ele tem é nosso por uma escritura de dívida. Você tem procuração dessa mulher?
― Tenho.
Então que lhe pague com um trapo, física e...
― Pelo que ouço – interrompeu Fialho – vocês, amigos, decidem que minha mulher se porta mal...
― Pois isso! – confirmou Pantaleão. – Nem dado nem de graça! Você inda duvida?!
― Eu, como não tenho desconfiado nem visto nada...
― Pudera ver... – redargüiu o fiscal da Misericórdia.
― E vocês tem ouvido falar de minha mulher? – perguntou Fialho.
― Olhe, isto de falar, fala-se de todas – respondeu o marido da maiata. – Nem a minha tem escapado, cá por certos zunzuns que me chegaram aos ouvidos; mas vêm barrados cá p’ra mim, que eu sei quem tenho...
Pantaleão e Atanásio trocaram uns lances de olhos velhacos, em que Hermenegildo entrou com o seu contingente de fino maroto.
― Isso é verdade – apoiou o marido de Francisca Ruiva. – A gente, se for a dar ouvidos à canalha, está perdida com a sua vida. Um homem tem sempre rabos de palha. Mas eu ando tanto ao seguro cá a respeito da minha honra, que desafio o mais pintado a dizer de minha mulher isto ou aquilo.
Desta vez os olhos de Joaquim encontraram os de Atanásio, enquanto Fialho lá entre si dizia: “Estás arranjado com a virtude de tua mulher...”
― Meus amigos, - disse Atanásio a seu turno – isto é terra de calunias e aleivosias. A inveja vinga-se em nos ferir no mais sagrado de nossas almas. Aqui estou eu que...
O truculento homicida do caixeiro ia fazer o elogio da consorte, quando Barrosas bradou impacientemente:
― Então em que ficamos, senhores?
― Em que ficamos?! – perguntou Atanásio.
― Sim! Os amigos estão aí a palavrear em objetos que não vêm à colação. Ora que tenho eu que as suas mulheres sejam isto ou aquilo? Se são boas e virtuosas, dêem graças a Deus, e tratem de remediar este contratempo.
― Não tem razão de se agoniar, amigo Fialho – contrariou mansamente Pantaleão. – Isto veio ao caso de você perguntar se tínhamos ouvido falar de sua mulher...
― Mas ouviram? – acudiu arrebatado o esposo de Ângela.
― Eu não! – condisseram os três simultaneamente: - mas você bem sabe – ajuntou Joaquim Antônio, ressalvando melhor juízo – que a nós ninguém dizia nada porque sabem que o Fialho e nós somos carne e unha.
― Sim – obtemperou Pantaleão – pode ser que haja alguma coisa; mas pelo que eu sei não perde ela. ― Mas vocês entendem que o dinheiro não foi para esmolas... – repisou o marido incomodado.
― Sim, eu... – murmurou Joaquim.
― A falar a verdade... – disse outro.
― É muita esmola... – concluiu o terceiro.
― Não que o administrador disse que podia ser!... – sobreveio Fialho, casquinando uma risada gosmenta.
― O administrador é um asno! – definiu laconicamente Pantaleão.
― Asno e mais alguma coisa! – obtemperou Atanásio.
― E então dizem vocês – tornou o brasileiro – que eu devo meter já minha mulher num convento?
― Pudera... – apoiou o marido de Francisca Ruiva.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.