Por Machado de Assis (1872)
Ao cabo de longos anos, era ele doutor em teologia, filosofia, matemática, direito, medicina, profundo antiquário, extremado nas ciências físicas e químicas; em suma o doutor dos doutores, a expressão mais alta da ciência humana. Aprendeu o latim, o grego, o árabe, o armênio, o turco, o hebraico. Traduziu para várias línguas as obras de Santo Agostinho e S. Tomás; fundou uma academia arqueológica e um liceu de filosofia; comentou os atos dos apóstolos, escreveu uma história dos mártires, fez descobertas arqueológicas em Roma, anunciou dois cometas e espantou toda a Europa científica não menos pela profundidade e variedade dos seus conhecimentos, como pelo prodigioso número de acontecimentos antigos a que presenciara.
Graças à riqueza que facilmente adquiriu, casou o nosso homem com uma fidalga de Espanha cinco vezes marquesa e rica de mais a mais. Durou pouco o casamento; a mulher faleceu dois anos depois, e foi essa a maior dor de sua vida, posto que a morta lhe deixara uma grande riqueza nas mãos.
De novo se entregou aos estudos da ciência, com redobrado ardor. Mas apesar da admiração que o mundo científico lhe votara, apesar da espécie de infalibilidade que adquirira perante as sociedades e academias, o nosso Ruy entrou a sofrer de um incurável aborrecimento. Tinha quase dois séculos e a vida já lhe pesava; o mundo não lhe oferecia espetáculo novo; a ciência perdera o prestígio da princípio: o imortal começou a desejar a morte.
Mas era tarde.
Como acharia ele a morte?
Ruy recorreu ao suicídio; sabia que era um crime perante Deus e os homens; mas não tinha outro recurso. Achava-se então em Lisboa, mas como já muitos dos que o conheceram antes tinham morrido, ninguém viu nele o mesmo Ruy de Leão e ele teve o cuidado de trazer nome suposto.
Ali resolveu acabar os seus dias. Foi ao Tejo e atirou-se à água; em ocasião em que não podia ser socorrido. Sabia nadar, mas não quis usar do que sabia. Debalde! o corpo voltou à tona e desceu até esbarrar num galeão, de onde foi visto e pescado. De outra vez recorreu à faca mas o mais que conseguiu foi abrir no pescoço uma ferida que se curou rapidamente.
Era impossível morrer.
Imagine quem puder o suplício deste homem condenado a ser imortal, a ver os mesmos dias, as mesmas comédias — este Tântalo da morte, ambicionando aquilo que os outros receiam — pedindo ao céu como a suprema felicidade uma cova para dormir. A situação é de si tão patética que eu não precisa lacrimejar o estilo; basta dizer a coisa para que ela seja compreendida.
Depois de estudar tudo e tudo ver; depois de passear pelas várias partes do mundo, sem encontrar novidade que lhe divertisse o ânimo; depois de ser assíduo espectador de tudo quanto pudesse despertar a curiosidade de um homem enfadado como, por exemplo, o homem de botas de cortiça, o boneco jogador de xadrez e outros, determinou Ruy de Leão voltar ao Brasil nos princípios deste século ali pelos anos de mil oitocentos e tantos, estando ainda cá o rei.
Efetivamente aqui aportou no Rio de Janeiro o imortal Ruy. A cidade não oferecia então o aspecto que hoje tem. A rua do Ouvidor não era a via elegante da capital; nem o Rocio estava transformado no jardim que aí vemos. Eram os belos tempos de Vidigal e seus granadeiros, de cujas proezas tão habilmente falou o nosso chorado dr. Manuel de Almeida, talento como poucos.
Ruy tratou de encobrir-se o mais que pôde; entrou como verdadeiro desconhecido. Contudo a presença de um homem tão sábio e tão rico, não era coisa que passasse despercebida ao povo nem à corte. Não tardou que fosse convidado para as melhores casas e os vários fidalgos de respeito do rei porfiaram em recebê-lo à sua sala. Era parceiro obrigado no whist dos velhos fidalgos, grande par do minueto, excelente cavaleiro do garfo, em suma a flor da boa roda.
Mas esse recreio durou pouco. No fim de dois meses voltou Ruy de Leão às suas mágoas antigas.
Foi então que lhe aconteceu um caso decisivo na sua vida.
Entre as damas que mais apreciavam o saber e os dotes do ilustre Ruy, havia uma D. Madalena de Sousa e Pedroiça, criatura tão notável pela graça do semblante, quanto pelas virtudes fidalgas da vida. Ruy ficara sempre com um grande pendor às mulheres, o que era naturalmente um corretivo da imortalidade, porquanto ser imortal e aborrecer as mulheres seria estar no pior de todos os infernos deste mundo e do outro.
Agradou-lhe D. Madalena, mas esta posto que o apreciasse muito, não lhe aceitou o coração. Coração repelido é o ideal da pertinácia. Ruy multiplicou as suas armas galantes, a ver se colhia a esquiva dama, e esta sempre isenta, dava de tábua às seduções do namorado.
Durou esta luta cerca de dois anos.
Uma noite, vindo recolher-se para casa o nosso Ruy, surdiu-lhe em frente um sujeito e lhe disse:
—Quer saber por que razão D. Madalena lhe recusa a mão?
— Quero.
— Ama a outro.
— Impossível.
— É verdade!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ruy de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1872.