Por Machado de Assis (1862)
Está já encomendado. Lá se encontrarão várias notabilidades do país. Quero fazer ao digno ministro, sob cujo teto tenho a honra de falar neste momento, aquelas honras que o talento e a virtude merecem.
SILVEIRA
Agradeço em nome dele esta prova...
PEREIRA
V. S. pode até fazer parte da nossa festa.
SILVEIRA
É muita honra.
PEREIRA
É meu costume, quando sobe um ministério, escolher o ministro mais simpático, e oferecer-lhe um jantar. E há uma coisa singular: conto os meus filhos por ministérios. Casei-me em 50; daí para cá, tantos ministérios, tantos filhos. Ora, acontece que de cada pequeno meu é padrinho um ministro, e fico eu assim espiritualmente aparentado com todos os gabinetes. No ministério que caiu, tinha eu dois compadres. Graças a Deus, posso fazê-lo sem diminuir as minhas rendas.
SILVEIRA
(à parte)
O que lhe come o jantar é quem batiza o filho.
PEREIRA
Mas o nosso ministro, demorar-se-á muito?
SILVEIRA
Não sei... ficou de voltar.
MATEUS
Eu peço licença para me retirar. (à parte, a Silveira) Não posso ouvir isto.
SILVEIRA
Já se vai?
MATEUS
Tenho voltas que dar; mas logo cá estou. Não lhe ofereço para jantar, porque vejo que S. Exa. janta fora.
PEREIRA
Perdão, se me quer dar a honra.
MATEUS
Honra... sou eu que a recebo... aceito, aceito com muito gosto.
PEREIRA
É no Hotel Inglês, às cinco horas.
Cena XI
Os mesmos, AGAPITO, MÜLLER
SILVEIRA
Oh! entra, Agapito!
AGAPITO
Como estás?
SILVEIRA
Trazes parabéns?
AGAPITO
E pedidos.
SILVEIRA
O que é?
AGAPITO
Apresento-lhe o Sr. Müller, cidadão hanoveriano.
SILVEIRA
(a Müller)
Queira sentar-se.
AGAPITO
O Sr. Müller chegou há quatro meses da Europa e deseja contratar o teatro lírico.
SILVEIRA
Ah!
MÜLLER
Tenho debalde perseguido os ministros, nenhum me tem atendido. Entretanto, o que eu proponho é um verdadeiro negócio da China.
AGAPITO
(a Müller)
Olhe que não é ao ministro que está falando, é ao primo dele.
MÜLLER
Não faz mal. Veja se não é negócio da China. Proponho fazer cantar os melhores artistas da época. Os senhores vão ouvir coisas nunca ouvidas. Verão o que é um teatro lírico.
SILVEIRA
Bem, não duvido.
AGAPITO
Somente, o Sr. Müller pede uma subvenção.
SILVEIRA
É justo. Quanto?
MÜLLER
Vinte e cinco contos por mês.
MATEUS
Não é má; e os talentos do país? Os que tiverem à custa do seu trabalho produzido inventos altamente maravilhosos? O que tiver posto na mão da pátria a soberania do mundo?
AGAPITO
Ora, senhor! A soberania do mundo é a música que vence a ferocidade. Não sabe a história de Orfeu?
MÜLLER
Muito bem!
SILVEIRA
Eu acho a subvenção muito avultada.
MÜLLER
E se eu lhe provar que não é?
SILVEIRA
É possível, em relação ao esplendor dos espetáculos; mas nas circunstâncias do país...
AGAPITO
Não há circunstâncias que procedam contra a música... Deve ser aceita a proposta do Sr. Müller.
MÜLLER
Sem dúvida.
AGAPITO
Eu acho que sim. Há uma porção de razões para demonstrar a necessidade de um teatro lírico. Se o país é feliz, é bom que ouça cantar, porque a música confirma as comoções da felicidade. Se o país é infeliz, é também bom que ouça cantar, porque a música adoça as dores. Se o país é dócil, é bom que ouça música, para nunca se lembrar de ser rebelde. Se o país é rebelde, é bom que ouça música, porque a música adormece os furores, e produz a brandura. Em todos os casos, a música é útil. Deve ser até um meio de governo.
SILVEIRA
Não contesto nenhuma dessas razões; mas meu primo, se for efetivamente ministro, não aceitará semelhante proposta.
AGAPITO
Deve aceitar; mais ainda, se és meu amigo, deves interceder pelo Sr. Müller.
SILVEIRA
Por quê?
AGAPITO
(baixo a Silveira)
Filho, eu namoro a prima-dona! (alto) Se me perguntarem quem é a prima-dona, não saberei responder; é um anjo e um diabo; é a mulher que resume as duas naturezas, mas a mulher perfeita, completa, única. Que olhos! Que porte! Que donaire! Que pé! Que voz!
SILVEIRA
Também a voz?
AGAPITO
Nela não há primeiros ou últimos merecimentos. Tudo é igual; tem tanta formosura, quanta graça, quanto talento! Se a visses! Se a ouvisses!
MÜLLER
E as outras? Tenho uma andaluza... (levando os dedos à boca e beijando-os) divina! É a flor das andaluzas!
AGAPITO
Tu não conheces as andaluzas.
SILVEIRA
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quase Ministro. In: ASSIS, Machado de. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (texto originalmente representado em 22 nov. 1862, Rio de Janeiro).