Por Coelho Neto (1898)
Uma tarde, finalmente, avistaram Heliopolis, a cidade do sol, com os seus zimborios claros, os seus altos pylonos, os seus templos colossaes.
Era a hora religiosa em que os sacerdotes entoavam, ao som dos kimores, cânticos a Atumú e os barqueiros do Nilo, colhendo as velas, abicavam á margem florida de lotos.
A Virgem sentia-se fatigada, e como parassem junto das ruinas de um tumulo, deixaram seguir a amotinada caravana e recolheram-se á funebre guarida.
Na manhan seguinte, cedo, antes da oração á aurora, levantaram-se os esposos dirigindo-se para a cidade resplandecente.
Junto á porta principal avultava uma arvore magestosa, cuja virtude era proclamada por quantos a conheciam.
Muitos adoravam-na como divindade. Tanto que Maria se lhe chegou á sombra, logo a arvore curvou-se dobrando-se no tronco, varrendo o solo com a folhagem basta. Tres vezes repetiu o respeitoso movimento, depois, sacudindo os ramos, espalhou todas as suas flores em volta, alcatifando a terra que os peregrinos deviam pisar.
E foi assim que a flora sagrada do Egypto recebeu a Familia de Jesus.
Atravessando a cidade em direcção á villa de Matarieh, entro sycomoros, regada pela única fonte que em taes terras deriva, todos os animaes sagrados dos templos que ficavam á beira do caminho que os esposos percorriam, rolaram dos altares partindo-se nas lages — assim a Phenix immortal, o touro Mnévis, o pássaro Bonu e o grande disco de ouro de Aton, o sol, que se desfez em estiIhas com grande espanto dos sacerdotes.
A população da villa de Matarieh, onde se fixou a Sagrada Família, era humilima ; pobre gente que labutava em pesados trabalhos soffrendo, sem revolta, a oppressão dos nobres, a affronta dos ricos, o castigo dos capatazes, o desprezo, a repulsa dos sacerdotes.
Se queria pedir aos deuses a piedade devida a todos os seres, os neochoros ameaçavam-na, corriam-na dos vestibulos por immunda, indigna de apparecer ante os altares.
Vivia em cabanas de lôdo, cobertas de palmas e tão nuas e desprovidas que os leitos eram alastros de folhas e os lumes eram fogueiras de versas.
Em uma d'essas cabanas installou-se José e logo, compondo-a, calafetando as fendas, amparando os esteios, substituindo as palmas da cobertura palhiça, alhanando o solo, tornoua mais confortável. Depois, com o que dispunha em moedas, adquiriu a ferramenta, e, á sombra larga de um sycomoro, começou a trabalhar contente, tranquillo, vendo o Menino crescer, brincar entre as fitas de madeira que a plaina tirava dos lenhos que ia acepilhando.
Maria, ordenando a casa, asseiando-a,. fazendo o lume, tomava a urna e subia a collina, caminho da fonte. Lá ficava lavando as roupas do casal e estendia-as na encosta do outeiro Matagoso. Á tarde recolhia-as.
Apesar da fadiga e da pobreza em que vivia, sentia-se feliz no socego. O' as lancinantes angustias! o medo de vêr-se orfan, despojada d'aquelle amor formoso! Ali, seu Filho podia andar livre, correr nos campos, mirar-se, risonho, nas águas da fonte, brincar com os pobresinhos da sua idade.
E ali viveram sete annos longos, ali cresceu o Infante, foram-se-lhe abrindo os olhos; ali sentiu o seu pequenino coração o primeiro pungir da piedade pela dôr humana : velhos sem lar, cahidos nas estradas, morrendo esquecidos, desamparados; criancinhas chorando sem consolo, perdidas, chamando as mais que lhes não podiam responder do fundo abafado dos túmulos em que jaziam ; mulheres fracas succumbindo ao peso das tarefas; enfermos implorando sem resposta.
Uma tarde, parando no outeiro em que brincava —os trabalhadores cantavam ao longe — enterneceu-se Jesus com os olhos arrasados em lagrimas.
Vendo-o chorar, Maria precipitou-se com- movida :
— Porque choras, meu Filho ?
— É tão triste o canto d'essa pobre gente, minha Mãi.
Longe, nos templos, resoavam hymnos.
A religião impassível respondia aos lamentos dos miseráveis com as panegyrias solemnes. E Jesus soluçava sobre a tristeza dos humildes.
Uma tarde, recolhendo do campo, viu José o anjo annuciador. Reconhecendo-o, prostrou-se com a face na terra.
—-Levanta-te, disse-lhe o divino enviado, toma o Menino e sua Mãi e vai para a terra de Israel, porque são fallecidos os que o buscavam para o matar.
Foi com alvoroço que a Virgem recebeu a boa nova — já lhe doía o coração com saudades da pátria. Despedindo-se dos visinhos, da fonte, do sycomoro á cuja sombra passava os dias fiando, grata, bem dizendo aquella terra de hospitalidade, preparou-se para a partida. Deixaram Heliopolis com uma caravana, quando, porém, avisinhavam-se dos palmares de Betlilcem, sabendo que Archeláo reinava na Judéa, sempre receiosos, metteram-se por desvios desertos e, depois de longas, trabalhosas voltas, chegaram a Nazareth, na Galiléa natal.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.