Por Lima Barreto (1911)
Conhecendo a fama do rapaz no Estado, a sua influência, o seu atrevimento, o seu despudor em fazer do seu cargo judicial instrumento das ambições políticas do partido e de opressão para os adversários, Cogominho percebeu bem que era melhor tê-lo por aliado, antes que se unisse a Flores quase sempre disposto a não lhe obedecer totalmente.
Era bom separar um do outro para que ambos mais tarde não lhe dessem o que fazer e mesmo o “tombo”. A desfaçatez judiciária de Numa dava medida do que ele seria capaz de fazer quando o solicitassem grandes ambições e tivesse o apoio familiar de Flores.
O processo da “Boa Vista” indicava bem a alma do seu chefe de polícia. Flores, o Coronel, por uma questão de gado, invadiu certa vez a estância do rival, matando-lhe filhas, filhos e criados e deixando que a horda que o acompanhava saqueasse casas, moinhos, currais e estrebaria. Até portas trouxeram.
Devido à celeuma que o caso levantou no Rio, houve processo e Numa, apesar das testemunhas, apesar de todas as provas, despronunciou Flores e seus sequazes.
Como esta, eram muitas as causas em que o juiz se fizera criatura do caudilho e seu casamento com a filha deste dar-lhe-ia uma força extraordinária na política do Estado. O braço juntar-se-ia à cabeça...
Pouco depois de eleito deputado estadual, Numa Pompílio de Castro casarase com a filha de Neves Cogominho sem surpresa para ninguém, nem mesmo para Flores que apadrinhara o antigo chefe de polícia.
Quando se fizeram as eleições federais, o genro do presidente foi feito deputado federal e, como tal, partiu par o Rio, apressado em tomar assento na Câmara Federal.
Tinha poucas relações e o seu desembarque não foi concorrido como era o do seu sogro. Contudo, alguns conhecimentos da mulher vieram, entre os quais um primo de que ele tinha notícia como extravagante de marca. Numa, então, conheceu-o; tratou-o com a polida severidade de suas virtudes judiciárias e admirouse da satisfação com que sua mulher o acolheu e do olhar doce e curioso que o cobriu todo.
Neves Cogominho ficou em Itaoca acabando o mandato de presidente; e, durante o primeiro ano, o genro foi fazendo com cautela a sua iniciação de deputado e de bacharel bem casado. Não faltava às sessões, conversava pouco, não adiantava opiniões e guardava de cor as de Bastos, à cuja casa não deixava de ir em obediências às recomendações do sogro.
Não se demorava na rua, mas pouco conversava com a mulher; dava os passeios e fazia as visitas de circunstâncias.
A vida e ambos era, entretanto, plácida como a de um velho casal.
A mulher lia, lia muito e ele, a princípio, admirou-se muito com aquela leitura.
Para quê? Não sabia bem que prazer pudesse ela encontrar nos livros com os quais só lidou por obrigação... Nada disse, no entanto; ambos se entenderam e ele mesmo, as mais das vezes, se prontificou a trazer este ou aquele volume.
Os observadores que o viam entrar nas livrarias, adquirir livros e revistas, começaram a estimá-lo como estudioso e homem de bom gosto. No fim de poucos meses, era conhecido dos caixeiros e o deputado Numa Pompílio de Castro continuava a ser obscuro, os diários não falavam nele e, mesmo quando aparecia nas festas as seções mundanas dos jornais não lhe davam o nome.
A mulher em que o casamento já começava a pesar, aborrecia-se com essa obscuridade. Não o amara, não o supunha inteligente, mas havia não sei que de organizado nele, de médio, de segurança de processo, que esperou sempre que a política o fizesse pelo menos conhecido; mas, assim não o queria e o seu enlace era um desastre sem desculpa aos seus olhos.
Esperava-o na Câmara barulhento, discutindo e ele vivia calado; esperava-o atacado pelos jornais da oposição e eles não diziam nada; esperava-o conhecido de todos e ninguém o conhecia, até mesmo as suas amigas. Ainda há dias a Hortênsia não lhe tinha perguntado: “Edgarda, teu marido é deputado?” Precisava animá-lo; fazia-se mister isso.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.