Por Machado de Assis (1881)
Não é impossível que isto fosse verdade; essa foi também a opinião da amiga; essa será a opinião da leitora. O certo é que eles seguiram e por lá ficaram, enquanto o Rochinha meditava na escolha da enfermidade que o levaria também a Nova Friburgo ou Teresópolis. Andava nessa indagação, quando se recebeu na corte a notícia de que o Vieira sucumbira a uma congestão cerebral.
— Feliz Rochinha! pensou cruelmente a prima, ao saber da morte do Vieira. Maria Luísa desceu logo depois de enterrar o marido. Vinha sinceramente triste; mas excepcionalmente bela, graças às roupas pretas.
Parece que, chegada a narrativa a este ponto, dispensar-se-ia o auxílio do narrador, e as coisas iam por si mesmas. Mas onde ficaria o caso da viúva, que deu que falar a um bairro inteiro? A amiga perguntou-lhe um dia se queria enfim casar com o Rochinha, agora, que nada mais se opunha ao consórcio de ambos.
— Ele é que o pergunta? disse ela.
— Quem o pergunta sou eu, disse a outra; mas há quem ignore a paixão dele?
— Crês que me ame?
— Velhaca! tu sabes bem que sim. Vamos lá; queres casar?
Maria Luísa deu um beijo na amiga; foi a sua resposta. A amiga, contente, enfim, de realizar a sua primitiva idéia, correu à casa do primo. Rochinha hesitou, olhou para o chão, torceu a corrente do relógio entre os dedos, abriu um livro de desenhos, arranjou um cigarro, e acabou dizendo que...
— Quê? perguntou ansiosa a prima.
— Que não, que não tinha idéia de casar.
A estupefação da prima daria outra novela. Tal foi o caso da viúva.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O caso da viúva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1881.