Por Machado de Assis (1868)
Consinto em que me veja, mas apenas um minuto. Irei com a minha criada, antes amiga que criada, em um carro, no dia 15, esperá-lo na praia do Flamengo, às sete horas da manhã. Para que se não engane, o carro tem o número 13; é o de um cocheiro que já esteve ao meu serviço.
— Que te dizia eu? perguntou Marcondes ao amigo quando este lhe mostrou esta resposta. Se não estivesse eu aqui lá se te ia por água abaixo este romance. Meu caro, dizem que a vida é um caminho cheio de espinhos e flores; se é assim, acho tolice que um homem não apanhe as flores que encontra.
Desta vez Marcondes pôde fazer tranqüilamente o discurso; porque Amaro Faria, todo entregue às emoções que a carta lhe produzia, não procurou atalhá-lo.
— Enfim, hoje são 13, disse Marcondes; 15 é o dia marcado. Se for bonita como diz, vê se foges com ela; o paquete do Rio da Prata sai a 23, e a tua fazenda é um quadrilátero.
— Vê que letra fina! e que perfume!
— Não tem dúvida; é uma mulher elegante. O que eu desejo é saber o resultado; no dia 15 vou esperar em tua casa.
— Sim.
VIII
Rompeu finalmente o dia 15, ansiosamente esperado por Amaro Faria. O jovem fazendeiro perfumou-se e enfeitou-se o mais que pôde. Estava adorável. Depois de um último olhar lançado ao espelho, Amaro Faria saiu e entrou num tílburi. Tinha calculado o tempo de lá chegar; mas, como todo o namorado, chegou um quarto de hora antes.
Deixou o tílburi a certa distância, e entrou a passear ao longo da praia. De cada vez que assomava um carro ao longe, Amaro Faria sentia-se enfraquecer; mas o carro passava, e em vez do número feliz trazia um 245 ou 523, que o deixava em profunda tristeza.
Amaro consultava o relógio de minuto a minuto.
Afinal assoma ao longe um carro que andava vagarosamente como devem andar os carros que entram em tais mistérios.
— Será este? disse Amaro consigo.
O carro aproximava-se com lentidão e vinha fechado, de maneira que ao passar junto de Amaro, este não pôde ver quem ia dentro.
Mas apenas passou, Amaro leu o número 13.
As letras pareceram-lhe de fogo.
Foi imediatamente atrás; o carro parou dali a vinte passos. Amaro aproximou-se e bateu na portinhola.
A portinhola abriu-se.
Havia dentro duas mulheres, ambas tinham um véu na cabeça, de maneira que Amaro não podia distinguir as suas feições.
— Sou eu! disse ele timidamente. Prometeu-me que eu a veria...
E dizendo isto dirigia-se alternadamente para uma e outra, pois não sabia qual delas era a misteriosa correspondente.
— Vê-la somente, e irei com a sua imagem no meu coração!
Uma das mulheres descobriu o rosto.
— Veja! disse ela.
Amaro recuou um passo.
Era Antonina.
A viúva continuou:
— Aqui estão as suas cartas; lucrei muito. Como depois de casada não será tempo de arrepender-se, foi bom que o conhecesse agora mesmo. Adeus.
Fechou a portinhola, e o carro partiu.
Amaro ficou alguns minutos no mesmo lugar, olhando sem ver, e com ímpetos de correr atrás do carro; mas era impossível apanhá-lo o mais ligeiro tílburi, porque o carro, levado a galope, ia longe.
Amaro chamou de novo o seu tílburi e voltou para a cidade.
Apenas chegou à casa, saiu-lhe ao encontro o jovem Marcondes, com um sorriso nos lábios.
— Então, é bonita?
— É o diabo! deixa-me!
Instado por Marcondes, o fazendeiro da Soledade contou tudo ao amigo, que o consolou como pôde, mas saiu de lá rindo às gargalhadas.
IX
Amaro voltou para a fazenda.
Quando entrava pelo portão da Soledade foi dizendo consigo estas filosóficas palavras:
— Volto ao meu café; sempre que fui em busca do desconhecido dei-me mal; agora tranco as portas e viverei no meio das minhas plantações.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O carro nº 13. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.