Por Machado de Assis (1871)
Jorge estava calejado no vício; tinha andado mais em poucos meses do que outros em muitos anos. Era impossível chamá-lo à razão. Silvestre arranjou os meios brandos, mas nada fez; lançou mão dos meios enérgicos, e a resistência que encontrou fez-lhe conhecer todo o mal da situação que ele mesmo criara.
D. Joaquina não deixou escapar a ocasião de fazer ao marido ásperas e merecidas censuras. O rapaz já não lhe obedecia; a boa senhora achou a causa desta resistência na docilidade com que Silvestre suportou os primeiros erros do filho. Eu poderia dar um extrato do discurso com que D. Joaquina descreveu esta situação perante o marido abatido e envergonhado; mas arriscava-me a não acabar o conto, do mesmo modo que ela não acabou o discurso, porque só se calou quando lhe faltou o ar.
VI
O CASAMENTO
Durante estes meses de loucuras de Jorge, a situação do dr. Marques pouco tinha adiantado, mas adiantara alguma coisa. O pretendente expusera à tia de Clarinha os seus desejos depois de dois meses de hesitação, e a boa senhora, aprovando as intenções do médico, só impôs a condição de que a sobrinha o amasse.
— Ah! minha senhora, disse Marques, a este respeito não posso afiançar nada. Não sei se sou ou não amado: D. Clarinha é tão acanhada que não deixa campo a investigações deste gênero..
— Pois bem; redargüiu D. Joaquina, eu tomo a mim a incumbência de consultar-lhe o coração. Imponho esta condição, porque conheço bem Clarinha; sei que é uma rapariga de muito juízo, e digna de escolher o seu próprio esposo. Em circunstâncias diversas, eu é que lhe havia de dar o noivo.
D. Joaquina cumpriu a palavra. Perguntou a Clarinha se ela nunca havia pensado em casar.
— Casar? eu? perguntou a sobrinha.
— Sim, tu.
— Não, nunca pensei.
Clarinha disse estas palavras em tom frio e indiferente; todavia, pareceu a D. Joaquina que esta idéia a entristecera.
— Dar-se-á caso que já o ame? disse a velha consigo mesma.
Correram alguns minutos de silêncio.
— Sabes que alguém deseja casar contigo? disse enfim a mulher de Aguiar.
— Casar comigo? perguntou a moça, abrindo muito os olhos.
— Sim, contigo.
— Titia está brincando.
— Brincando por quê? Não mereces ser pretendida por alguém?
Clarinha não respondeu.
— E essa pessoa, é muito nossa conhecida.
— Ah!
— Já reparaste?
Clarinha levou a mão ao coração.
— Não, murmurou ela.
— Não adivinhas quem seja?
— Não posso adivinhar.
— O dr. Marques.
Clarinha empalideceu. A boa velha não tirava os olhos dela para ver se lhe lia no rosto os sentimentos do coração. Mas verdade, verdade, D. Joaquina não sabia traduzir fisionomias. A comoção de Clarinha, qualquer que fosse a causa, pareceu-lhe que era de bom agouro para o médico.
— Ama-o, não tem dúvida, disse ela consigo. Tudo está arranjado.
Clarinha recobrou a palavra no fim de dez minutos.
— Titia, murmurou ela; a senhora sabe o que me convém, e eu estou às suas ordens.
— Ordens, não, disse D. Joaquina; isto não é uma ordem; é uma consulta.
— O dr. Marques, disse Clarinha, é um excelente homem...
— E um excelente marido? concluiu D. Joaquina rindo.
Clarinha não respondeu.
O silêncio da moça foi interpretado como um assentimento, e a esposa do comendador imediatamente deu parte ao médico do resultado da sua missão.
Clarinha, apenas ficou só, correu ao quarto e debulhou-se em lágrimas — lágrimas silenciosas e sufocadas, para que ninguém lhas ouvisse nem suspeitasse sequer. Depois, tirou de uma gaveta um retrato, contemplou-o longo tempo, e beijou-o repetidas vezes.
Quando reapareceu na sala tinham desaparecido os vestígios das lágrimas. Estava triste; mas como esse era o natural estado da moça, ninguém procurava saber-lhe a causa. Quando Marques soube do resultado da missão de D. Joaquina não pôde esconder o seu regozijo.
— Acho, porém, conveniente, disse a mulher de Aguiar, que o senhor ouça da própria boca de Clarinha a confissão, da qual eu só alcancei metade.
Não hesitou Marques em sondar por si próprio o coração de Clarinha. Era ele um homem honesto e de nenhum modo queria casar com ela sem ter a certeza de que ela não o faria obrigada.
O resultado desta nova experiência foi mais satisfatório ainda que o da primeira. A moça não lhe confessou amor com os termos de um coração apaixonado; mas teve palavras tão afetuosas para o médico, que o casamento foi logo decidido por parte da senhora D. Joaquina.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.