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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

No dia seguinte Fernando estava formado e a casa do Conselheiro toda em preparos de festa; Magdá que havia muito não se animava a dirigir-lhe palavra, foi ter com ele e, depois de lhe dar os parabéns, interrogou-o com um olhar cheio de ansiedade. O moço fez que não entendeu, mas ficou perturbado.

Então! disse Magdá.— Então o que, minha amiguinha?

— Pois não estás formado afinal?

— E daí?

— Daí é que havíamos combinado que me pedirias hoje em casamento...

Fernando perturbou-se mais.

— Ainda pensavas nisso?... gaguejou por fim, em ânimo de encará-la. E acrescentou depois, percebendo que ela não se mexia: — Parto daqui a dias para a Europa e não sei quando voltarei...

Magdá sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, um punho de ferro tomar-lhe a boca do estômago e subir-lhe até a garganta, sufocando-a .

— Bem!

E não pode dizer mais nada, virou-lhe as costas e afastou-se de carreira, como se levasse consigo uma bomba acesa e não quisesse vê-la rebentar ali mesmo.

— Ouve, Magdá! Espera.

Ela havia alcançado já o quarto; atirou-se à cama. E a bomba estourou, sacudindo-a toda, convulsivamente, numa descarga de soluços que se tornavam progressivamente mais rápidos e mais fortes, à semelhança do ansioso arfar de uma locomotiva ao partir.

III

Terminada a crise dos soluços, Magdá sentiu uma estranha energia apoderar-se dela; uma necessidade de reação; andar, correr, fazer muito exercício; mas ao mesmo tempo não se achava com ânimo de largar a cama. Era uma vontade que se lhe não comunicava aos membros do corpo. Ergueu-se, afinal, mandou chamar o pai, e este não se fez esperar. Ia pálido e acabrunhado; é que estivera conversando antes com o filho a respeito do ocorrido. A notícia do procedimento de Magdá fulminara-o; supunha-a já de todo esquecida dos seus projetos de casamento com o irmão e agora se arrependia de não haver dado as providências para que este se apartasse dela; sentia-se muito culpado em ter sido o próprio a detê-lo em casa, e doía-lhe a consciência fazer sofrer daquele modo a pobre menina. No entanto, quando o rapaz lhe pediu licença para confessar a verdade à irmã, negou-a a pé firme, aterrado com a idéia de ter de corar diante da filha. — Não! Tudo, menos isso!

Fernando protestou as suas razões contra tal egoísmo: não era justo que se expatriasse amaldiçoado por uma pessoa a quem tanto estremecia, sem ter cometido o menor delito para merecer tamanho castigo. Ah! se o pai tivesse visto com que profunda indignação, com que ódio, com que nojo, ela o havia encarado!...

— Não! nunca! Que se poderia esperar de uma filha, que recebesse do próprio pai semelhante exemplo de imoralidade?...

Foi nessa ocasião que o criado o interrompeu com o chamado de Magdá. O Conselheiro, quando chegou junto dela, sentiu-se ainda mais comovido: "Não seria tudo aquilo um crime maior do que os seus passados amores com a mãe de Fernando?... Sim; estes ao menos não se baseavam em preconceitos e vaidades, baseavam-se nos instintos e na ternura". E o mísero, atordoado com estas idéias, tomou as mãos da filha, falhou-lhe com humildade perguntou-lhe com muito carinho o que ela sentia.

— Quase nada! Um simples abalo... Já não tinha coisa alguma...

E tremia toda.

— Queres que mande buscar o Dr. Lobão? Estou te achando o corpo esquentado.

— Não, não vale a pena; isto não é nada. Eu chamei-o papai, para lhe pedir um obséquio...

— Um obséquio? Fala, minha filha.

— Pedir um obséquio e fazer-lhe uma declaração...

E, brincando com os botões da sobrecasaca do Conselheiro: — Sabe? Estou resolvida a casar com o Martinho de Azevedo; desejava que meu pai lhe mandasse comunicar imediatamente esta minha deliberação...

— Temos tolice!...

— E queria que o casamento se realizasse antes da partida do Fernando...

— Estás louca?

— Se estiver, tanto pior para mim. Afianço-lhe que hei de fazer o que estou dizendo!

— Não sejas vingativa, minha filha; Fernando contou-me o que se passou entre vocês dois, disse0me tudo, e eu juro pela memória de tua mãe que o procedimento dele não podia ser outro... Foi correto, fez o seu dever!

O seu dever? Tem graça!

— Mais tarde verás que digo a verdade; o que desde já posso afirmar é que o pobre rapaz não tem absolutamente a menor culpa em tudo isto. Não o deves ver com maus lhos, nem lhe deves retirar a tua confiança e a tua estima...

— Mas fale por uma vez! Não vê que as suas meias palavras me põem doida?...

— Não posso; é bastante que acredites em mim; eu juro-te que Fernando, negando-se a casar contigo, cumpre o seu dever. Vou chamá-lo e quero que...

— Não, não! atalhou a filha, segurando-lhe os braços. — Ele que não me apareça! Que não me fale! Detesto-o!

— Não acreditas em teu pai!...

— Não sei; acredito é que entre o senhor e ele há uma conspiração contra mim! Querem engodar-me com mistérios que não existem, como se eu fosse alguma criança! Ah! mas eu mostrarei que não sou o que pensam!

— Então, minha filha, então!

(continua...)

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