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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

Primeiro, um padre trazia o crucifixo entre dous acólitos, que empunhavam grandes varas de prata, em cuja extremidade uma vela de cera ardia no meio de um tufo dê rosas artificiais. Depois vinha a irmandade, precedendo o andor vagarosa, fazendo cair ao chão as grandes lágrimas brancas das tochas acesas. Todos se ajoelharam. Nossa Senhora passava, muito branca e muito serena, guirlandada de raios de prata, de mãos cruzadas ao peito, de olhos erguidos ao céu radiante daquela tarde formosa, sobre o andor dourado, transbordante de flores. Depois, o pálio, oscilando... Ouviam-se já, no couce do préstito, os acordes da banda militar.

Branca admirou o talhe esbelto de d. Pedro, que vinha fardado, empunhando uma das varas... Por um acaso qualquer, o batalhão parou mesmo diante de Branca.

E Branca sentiu de repente que o sangue lhe galopava à face e que o coração lhe batia no peito, vendo o capitão que comandava a tropa, cravar-lhe na face dous olhos negros e ávidos, que a abrasavam toda no primeiro rubor amoroso.

Paulo de Andrade, capitão das guardas do príncipe regente d. Pedro, era um belo moço de 27 anos, desempenado e forte, belo exemplar de homem e soldado. Foi desse cruzamento instantâneo do seu olhar com o de Branca que nasceu a paixão que o devia para sempre unir a ela e que o devia matar: paixão nascida num minuto, dessas paixões que, por aparecerem muitas vezes nos romances, parecem hoje absurdas e incríveis na vida real.

Branca seguiu-o com os olhos, até vê-lo desaparecer numa volta da ladeira. E já ele tinha desaparecido e ainda ela o via, alto e bonito, na farda abotoada, com a espada ao ombro, fulgurando à frente dos soldados.

Quando entrou em casa, a moça ia triste, de uma tristeza cuja causa ela mesmo não compreendia bem. Nessa noite, nem os beijos do pai a alegraram. Retirou-se para o seu quarto, onde, em frente à cama virginal, uma Nossa Senhora da Conceição abria os braços, num pequeno oratório de vinhático. Ajoelhou-se para rezar. Mas as palavras da reza confundiam-selhe na cabeça. O que ela via ali, no pequeno oratório de vinhático, não era a Senhora da Conceição: era outra, a da Glória, precedida da irmandade, seguida do príncipe e de um belo capitão, cujos olhos ainda agora a abrasavam.

Despiu-se e deitou-se. Mas embrulhou-se muito, com muito pudor, como se receasse que alguém a estivesse vendo. Quis dormir: o sono não veio.

Dentro dela, alguma cousa cantava, alguma cousa gemia, alguma cousa gritava. Ouvia sair de dentro de si um grande clamor de exigências e de desejos: parecia que o sangue lhe rufava nas veias, entre estridores frenéticos de clarins, o hino vitorioso da sua puberdade despertada. E estremecia, julgando sentir na boca ansiosa o contato rude dos grandes bigodes negros do capitão das guardas. Por fim, um grande pranto lhe subiu aos olhos: e ela enterrou a cabeça no travesseiro, sacudida por soluços que não podia reprimir, com um grande medo do amor, que sentia nascer dentro de si e que só agora começava a compreender.

Com o correr dos dias, Branca e Paulo de Andrade viram-se de novo. O acaso, que é o maior alcoviteiro do mundo, arranjou meios de os aproximar cada vez mais. E, d. Emerenciana, seduzida pela simpatia que lhe soube inspirar o capitão e pelo grande afeto que tinha à moça, prestou-se a auxiliar-lhes o amor.

De modo que, nessa noite em que o Satanás ao sair da bodega do Trancoso foi à casa da rua do Conde, já havia muito tempo que o capitão tinha entrevistas com Branca mas eram entrevistas puras, a que sempre a velha assistia. E estavam todos à espera da primeira ocasião oportuna em que a velha pudesse contar tudo ao Satanás e em que Paulo pudesse pedir-lhe a mão da filha em casamento.

O Satanás, depois de abraçar a filha, chamou a velha de parte. Era assim todas as noites: queria saber de tudo que tinha havido, se nenhum vulto suspeito tinha aparecido a rondar a casa, se a filha tinha estado à janela.

Emerenciana tranqüilizou-o: a velha não achava conveniente referir-lhe as pretensões do capitão - preferia esperar e levá-lo com jeito, receosa que o gênio arrebatado e brigalhão do Satanás deitasse tudo a perder.

O Satanás retirou-se. Voltava para o lodo, depois de curta parada no céu. Ia de novo encontrar o amo, que deixara ocupado a encher de consolo a noite de uma formosa cigana, que morava para as bandas do Valongo.

E apertando muito a filha nos braços, o escultor beijou-a na fronte, fez novas recomendações a d. Emerenciana, e, descendo a escada, tornou a mergulhar de novo nas trevas da noite o seu vulto misterioso.

IV

ELE

Naquela noite o Satanás não tinha muita pressa em encontrar-se com o seu real discípulo de armas. Sabia-o sossegadamente em lugar seguro, em uns amores desses que só fazem correr perigo à bolsa dos galantes.

História escandalosa de momento, grandemente comentada pela corte, onde a Domitila intrigava, a tal paixão do príncipe era, entretanto, cousa muito honesta.

Ficava para longe, para o Valongo.

(continua...)

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