Por Aluísio Azevedo (1895)
Ele a rondava como um gato que fareja o guarda-comida; parecia sentir de fora o cheiro do que havia de mais apetitoso naquelas estantes, e, por seu maior tormento, bastava trepar-se a uma cadeira e espiar por cima da porta, para devassar perfeitamente a biblioteca.
Um suplício! Vinham-lhe até ímpetos de arrombar a fechadura; e, como consolação, passava horas esquecidas sobre a cadeira, na pontinha dos pés, a olhar de longe para os livros, procurando distinguir e ler o que diziam eles nas letras de ouro que expunham nas lombadas.
Alguns, então, lhe produziam verdadeiras angústias, principalmente os grandes, os de lombo muito largo, que aí estavam de costas, soberbos, como bojudos sábios, concentrados e adormecidos na sua ciência.
O Coruja tivera sempre um pendor muito particular por tudo aquilo que lhe cheirava a alfarrábio e línguas mortas. Adorava os livros velhos, em cuja leitura encontrasse dificuldades a vencer; gostava de cansar a inteligência na procura de explicação de qualquer ponto duvidoso ou de qualquer fosse sujeita a várias interpretações.
Já desde a casa do padre Estêvão que semelhante tendência se havia declarado nele. É que seu gênio retraído e seco dava-se maravilhosamente com esses amigos submissos e generosos - os livros; esses faladores discretos, que podemos interromper à vontade e com os quais nos é permitido conversar dias inteiros, sem termos aliás obrigação de dar uma palavra.
Ora, para o André, que morria de amores pelo silêncio, isto devia ser o ideal das palestras. Além do que, à sua morosa e arrastada compreensão só o livro podia convir. O professor sempre se impacienta, quando tem de explicar qualquer coisa mais de uma vez; o livro não, o livro exige apenas a boa vontade de quem estuda, e no Coruja a boa vontade era justamente a qualidade mais perfeita e mais forte.
Um dia, o diretor, descendo inesperadamente ao primeiro andar, encontrou-o tão embebido a espiar para dentro da biblioteca que se chegou a ele sem ser sentido e deulhe uma ligeira palmada no lugar que encontrou mais à mão.
O Coruja, trepado às costas de uma cadeira e agarrado à bandeira da porta, virou-se muito vermelho e confuso, como se o tivessem surpreendido a cometer um crime. - Que faz o senhor aí, seu Miranda?
- Olhava.
- Que olhava o senhor?
- Os livros.
O Dr. Mosquito encarou-o de alto a baixo, e, depois de medir um instante acrescentou:
- Vá lá acima e diga à mulher que mande as minhas chaves.
André saltou do seu observatório e apressou-se a dar cumprimento às ordens do diretor. Este, logo que chegaram as chaves, abriu a biblioteca e entrou. O pequeno, à porta, invadiu-a com um olhar tão sôfrego e tão significativo, que o Dr. Mosquito o chamou e perguntou-lhe qual era o livro que tanto o Impressionara.
André coçou a cabeça, hesitando, mas a sua fisionomia encarregou-se de responder, visto que o diretor, depois de lamentar com um gesto a grande quantidade de pó encamado sobre os livros, foi à fechadura, separou do molho de chaves a da biblioteca e disse, passando-lha:
- Durante o resto das férias, fica o senhor encarregado de cuidar destes livros e de fazer tudo isto arranjado e limpo. Quer?...
André sacudiu a cabeça afirmativamente e apoderou-se da chave com uma tal convicção, que o diretor não pôde deixar de rir.
Logo que se viu só, tratou de munir-se de um espanador e de um pano molhado, e, com o auxílio de uma escadinha que havia na biblioteca, principiou a grande limpeza dos livros.
Não abriu nenhum deles, enquanto não deu por bem terminada a espanação. Metódico, como era, não gostava de entregar-se a qualquer coisa sem ter de antemão preparado o terreno para isso.
Oh! Mas quão diferente foi do que esperava a impressão recebida, quando se dispôs a usufruir do tesouro que lhe estava franqueado.
Não sabia qual dos livros tomar de preferência; não conseguia ler de nenhum deles mais do que algumas frases soltas e apanhadas ao acaso.
E, toda aquela sabedoria encadernada e silenciosa, toda aquela ciência desconhecida que ali estava, por tal forma o confundiu e perturbou que, no fim de alguns segundos de dolorosa hesitação, o Coruja como que sentia libertar-se dos volumes a alma de cada página para se refugiarem todas dentro da cabeça dele.
Bem penosas foram as suas primeiras horas de biblioteca. O desgraçadinho quase que se arrependeu de havê-la conquistado com tanto empenho, e chegue a desejar que, em vez de tamanha fartura de livros, lhe tivessem franqueado apenas quatro ou cinco. Mas veio-lhe em socorro uma idéia que, mal surgiu, começou logo por acentuar-se-lhe no espírito, como uma idéia de salvação.
Era fazer um catálogo da biblioteca.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.