Por Machado de Assis (1868)
- Agora, creio; mas não negas que ele é digno de ser amado. Dentro de dous meses está apaixonada por ele.
Adelaide não disse palavra. Curvou a cabeça e começou a torcer nos dedos uma das tranças bastas e negras. O seio arfava-lhe com força; a menina tinha os olhos cravados no tapete.
- Vamos, está decidido, não? perguntou Vasconcelos.
- Mas, papai, e se eu for infeliz?...
- Isso é impossível, minha filha; hás de ser muito feliz; e hás de amar muito a teu marido.
- Oh! papai, disse-lhe Adelaide com os olhos rasos de água, peço-lhe que não me case ainda...
- Adelaide, o primeiro dever de uma filha é obedecer a seu pai, e eu sou teu pai. Quero que te cases com o Gomes; hás de casar.
Estas palavras, para terem todo o efeito, deviam ser seguidas de uma retirada rápida. Vasconcelos compreendeu isso, e saiu da sala deixando Adelaide na maior desolação.
Adelaide não amava ninguém. A sua recusa não tinha por ponto de partida nenhum outro amor; também não era resultado de aversão que tivesse pelo seu pretendente.
A menina sentia simplesmente uma total indiferença pelo rapaz. Nestas condições o casamento não deixava de ser uma odiosa imposição. Mas que faria Adelaide? a quem recorreria?
Recorreu às lágrimas.
Quanto a Vasconcelos, subiu ao gabinete e escreveu as seguintes linhas ao futuro genro:
Tudo caminha bem; autorizo-te a vires fazer a corte à pequena, e espero que dentro de dous meses o casamento esteja concluído.
Fechou a carta e mandou-a.
Pouco depois voltaram de fora Augusta e Lourenço.
Enquanto Augusta subiu para o quarto da toilette para mudar de roupa, Lourenço foi ter com Adelaide, que estava no jardim.
Reparou que ela tinha os olhos vermelhos, e inquiriu a causa; mas a moça negou que fosse de chorar.
Lourenço não acreditou nas palavras da sobrinha, e instou com ela para que lhe contasse o que havia.
Adelaide tinha grande confiança no tio, até por causa da sua rudeza de maneiras. No fim de alguns minutos de instâncias, Adelaide contou a Lourenço a cena com o pai.
- Então, é por isso que estás chorando, pequena?
- Pois então? Como fugir do casamento?
- Descansa, não te casarás; eu te prometo que não te hás de casar... A moça sentiu um estremecimento de alegria.
- Promete, meu tio, que há de convencer a papai?
- Hei de vencê-lo ou convencê-lo, não importa; tu não te hás de casar. Teu pai é um tolo.
Lourenço subiu ao gabinete de Vasconcelos, exatamente no momento em que este se dispunha a sair.
- Vais sair? perguntou-lhe Lourenço.
- Vou.
- Preciso falar-te.
Lourenço sentou-se, e Vasconcelos, que já tinha o chapéu na cabeça, esperou de pé que ele falasse.
- Senta-te, disse Lourenço.
Vasconcelos sentou-se.
- Há dezesseis anos...
- Começas de muito longe; vê se abrevias uma meia dúzia de anos, sem o que não prometo ouvir o que me vais dizer.
- Há dezesseis anos, continuou Lourenço, que és casado; mas a diferença entre o primeiro dia e o dia de hoje é grande.
- Naturalmente, disse Vasconcelos. Tempora mutantur et...
- Naquele tempo, continuou Lourenço, dizias que encontraras o paraíso, o verdadeiro paraíso, e foste durante dois ou três anos o modelo dos maridos. Depois mudaste completamente; e o paraíso tornar-se-ia verdadeiro inferno se tua mulher não fosse tão indiferente e fria como é, evitando assim as mais terríveis cenas domésticas.
- Mas, Lourenço, que tens com isso?
- Nada; nem é disso que vou falar-te. O que me interessa é que não sacrifiques tua filha por um capricho, entregando-a a um dos teus companheiros de vida solta...
Vasconcelos levantou-se:
- Estás doudo! disse ele.
- Estou calmo, e dou-te o prudente conselho de não sacrificares tua filha a um libertino.
- Gomes não é libertino; teve uma vida de rapaz, é verdade, mas gosta de Adelaide, e reformou-se completamente. É um bom casamento, e por isso acho que todos devemos aceitá-lo. É a minha vontade, e nesta casa quem manda sou eu.
Lourenço procurou falar ainda, mas Vasconcelos já ia longe. "Que fazer?" pensou Lourenço.
Capítulo V
A oposição de Lourenço não causava grande impressão a Vasconcelos. Ele podia, é verdade, sugerir à sobrinha idéias de resistência; mas Adelaide, que era um espírito fraco, cederia ao último que lhe falasse, e os conselhos de um dia seriam vencidos pela imposição do dia seguinte.
Todavia era conveniente obter o apoio de Augusta. Vasconcelos pensou em tratar disso o mais cedo que lhe fosse possível.
Entretanto, urgia organizar os seus negócios, e Vasconcelos procurou um advogado a quem entregou todos os papéis e informações, encarregando-o de orientá-lo em todas as necessidades da situação, quais os meios que poderia opor em qualquer caso de reclamação por dívida ou hipoteca.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.