Por Machado de Assis (1866)
Não tendo relógio não sabia que horas eram. O sol estava encoberto. João das Mercês chegou à janela a ver se via o dono da casa.
Não viu ninguém.
Pouco depois deram os sinos meio-dia.
- Meio-dia - disse ele -. Onde estará este homem?
Começou a sentir fome e a arrepelar-se com a demora, quando instintivamente levou a mão ao bolso do colete.
Não achou o bilhete!...
- Roubado! - exclamou ele com desespero.
Chegou à janela, gritou, acudiu gente à porta que o deram por maluco. Do segundo andar desceram algumas pessoas, e depois de ouvirem as queixas do mísero rapaz, foram chamar a autoridade.
Quando o rapaz conseguiu achar-se na rua eram já duas horas. Seu primeiro pensamento foi ir à casa de loteria.
Correu para lá.
Ó desgraça! Todos os quartos da sorte grande estavam pagos. Deu os sinais de Viana e eram os mesmos de um sujeito que lá fora cobrar um quarto.
Não se pode descrever o desespero de João das Mercês. Faltava-lhe aquele golpe mais terrível que todos, o de ter a fortuna na mão e senti-la voar como um pássaro esquivo.
Não hesitou; a ideia de morrer entrou-lhe na cabeça como uma solução às suas desgraças.
No fundo do bolso ainda achou um cartão de barca. Dirigiu-se à ponte e tomou passagem para São Domingos.
No meio da viagem, aproveitou o descuido das pessoas que se achavam perto dele e atirou-se ao mar.
Houve logo a bordo o rebuliço que um caso destes produz. A barca parou e a bordo se empregaram todos os esforços para salvar o infeliz.
João das Mercês veio à tona d`água quando lhe atiraram uma corda; ele repeliu-a com energia.
Seu pensamento era morrer.
Não contava com o caiporismo.
Os esforços empregados em favor de uma criatura que não queria nada da vida foram coroados de sucesso, João das Mercês foi salvo.
Passado esse triste acontecimento, João das Mercês dispôs-se a lutar violentamente com a sorte; pareceu-lhe esta sorrir. Alcançou o rapaz um emprego que lhe dera com que viver pobremente.
Alugou uma casinha na Cidade Nova, e assim passou alguns meses.
Um dia reparou que havia defronte uma velha que não deixava de sorrir quando ele entrava ou saía de casa. João das Mercês cumprimentava-a cortesmente, mas não julgava que o riso fosse com ele.
A casa da velha era a melhor casa da rua, e a moradora passava por ser rica.
Quando João das Mercês descobriu que o riso era com ele, começou a prestar maior atenção à vizinha. Esta redobrou de demonstrações e seria enfadonho contar aqui miudamente os acontecimentos que se deram depois. Basta saber que João das Mercês entrou a frequentar a casa da vizinha, e esta declarou-lhe francamente o amor que o moço lhe havia inspirado.
Não devendo esperar que a própria velha oferecesse aquilo que era um favor para ele, João das Mercês exclamou um dia:
- E se nós nos casássemos?
- Essa é a minha intenção - disse Margarida -, se acha que eu o posso fazer feliz.
- Oh! Mais que feliz!
A velha tinha duzentos contos.
Era mais que a sorte grande.
Marcou-se o dia do casamento, correram os pregões, João das Mercês mandou fazer a roupa nova e convidou Gaspar para ser padrinho.
- Sem dúvida, meu rapaz - respondeu o tio -, mas quem é a madrinha?
- Eu tinha-me lembrado de minha tia...
- Conta com ela; vou agora mesmo avisá-la.
Margarida não cabia em si de contente; dizia que, apesar da idade que tinha, sentia em si mais amor do que nunca tivera ao defunto marido.
João das Mercês disse a mesma cousa. Amara muitas vezes, mas nunca com tanta força.
- Sei o que é - acrescentava ele -, é que eu amei sempre a umas delambidas sem gravidade nem as graças que só se podem ter em certa idade.
Margarida não tinha parente nenhum com exceção de um primo remoto, que fez todos os esforços para impedir o casamento, e que, nada tendo alcançado, resolvera aceitar o convite para ser padrinho, não podendo brigar com a parente rica.
Raiou enfim a véspera do casamento.
Por conselho da noiva, João das Mercês tinha desistido do emprego, aliás com repugnância, porque não queria parecer que ia viver às sopas da mulher. A cousa era isso mesmo, mas ele não queria a aparência da cousa.
Terníssimos foram os adeuses dos noivos na véspera do casamento. João das Mercês já tinha fechado a porta, e Margarida ainda acenava com o lenço.
Alta noite foi João das Mercês acordado por violentas pancadas na porta. Levantou-se sobressaltado e foi ver o que era.
Era um escravo de Margarida.
Vinha dizer que a senhora estava mal; e que o mandava chamar.
A primeira frase de dor do rapaz foi toda egoísta:
- Ah! Meu caiporismo! - exclamou ele enfiando as calças.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caipora. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.