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#Comédias#Literatura Brasileira

O protocolo

Por Machado de Assis (1862)

Vou sangrar-me...

ELISA

Hein?

VENÂNCIO

Sangrar-me em saúde contra uma suspeita sua.

ELISA

Suspeita?

VENÂNCIO

Suspeita de haver-me adiantado o meu relógio.

ELISA

(rindo)

Posso crê-lo.

VENÂNCIO

Estará em erro. Olhe, são duas horas; confronte com o seu: duas horas.

ELISA

Pensa que acreditei seriamente?

VENÂNCIO

Vim mais cedo, e de passagem. Quis antecipar-me aos outros no cumprimento de um dever. Os antigos, em prova de respeito, depunham aos pés dos deuses grinaldas e festões; o nosso tempo, infinitamente prosaico, só nos permite oferendas prosaicas; neste álbum ponho eu o testemunho do meu júbilo pelo dia de hoje.

ELISA

Obrigada. Creio no sentimento que o inspira e admiro o gosto da escolha.

VENÂNCIO

Não é a mim que deve tecer o elogio.

ELISA

Foi gosto de quem vendeu?

VENÂNCIO

Não, minha senhora, eu próprio o escolhi; mas a escolha foi das mais involuntárias; tinha a sua imagem na cabeça, e não podia deixar de acertar.

ELISA

É uma fineza de quebra. (folheia o álbum)

VENÂNCIO

É por isso que me vibra um golpe?

ELISA

Um golpe?

VENÂNCIO

É tão casta que não há de calcular comigo; mas as suas palavras são proferidas com uma indiferença que eu direi instintiva.

ELISA

Não creia...

VENÂNCIO

Que não creia na indiferença?

ELISA

Não... Não creia no cálculo...

VENÂNCIO

Já disse que não. Em que devo crer seriamente?

ELISA

Não sei.

VENÂNCIO

Em nada, não lhe parece?

ELISA

Não reza a história de que os antigos, ao depositarem as suas oferendas, apostrofassem os deuses.

VENÂNCIO

É verdade: este uso é do nosso tempo.

ELISA

Do nosso prosaico tempo.

VENÂNCIO

A senhora ri? Riamos todos! Também eu rio, e da melhor vontade.

ELISA

Pode rir sem temor. Acha que sou deusa? Mas os deuses já se foram. Estátua, isto sim.

VENÂNCIO

Será estátua. Não me inculpe, nesse caso, a admiração.

ELISA

Não inculpo, aconselho.

VENÂNCIO

(repoltreando-se)

Foi excelente esta idéia do divã. É um consolo para quem está cansado, e quando à comodidade junta o bom gosto, como este, então é ouro sobre azul. Não acha engenhoso, D.. Elisa?

ELISA

Acho.

VENÂNCIO

Devia ser inscrito entre os beneméritos da humanidade o autor disto. Com trastes assim, e dentro de uma casinha de campo, prometo ser o mais sincero anacoreta que jamais fugiu às tentações do mundo. Onde comprou este?

ELISA

Em casa de Costrejean.

VENÂNCIO

Comprou uma preciosidade.

ELISA

Com outra que está agora por cima, e que eu não comprei, fazem duas, duas preciosidades.

VENÂNCIO

Disse muito bem! É tal o conchego que até se podem esquecer as horas... É verdade, que horas são? Duas e meia. A senhora dá-me licença?

ELISA

Já se vai?

VENÂNCIO

Até a hora do jantar.

ELISA

Olhe, não me queira mal.

VENÂNCIO

Eu, mal! E por quê?

ELISA

Não me obrigue a explicações inúteis.

VENÂNCIO

Não obrigo, não. Compreendo de sobejo a sua intenção. Mas, francamente, se a flor está alta para ser colhida, é crime aspirar-lhe de longe o aroma e adorá-la?

ELISA

Crime não é.

VENÂNCIO

São duas e meia. Até a hora do jantar.

Cena IX

VENÂNCIO, ELISA, LULU

LULU

Sai com a minha chegada?

VENÂNCIO

Ia sair.

LULU

Até quando?

VENÂNCIO

Até a hora do jantar.

LULU

Ah! janta conosco?

ELISA

Sabes que faço anos, e esse dia é o dos amigos.

LULU

É justo, é justo!

VENÂNCIO

Até logo.

Cena X

LULU, ELISA

LULU

Oh! Teve presente!

ELISA

Não achas de gosto?

LULU

Não tanto.

ELISA

É prevenção. Suspeitas que é do Venâncio Alves?

LULU

Atinei logo.

ELISA

Que tens contra esse moço?

LULU

Já to disse.

ELISA

É mau deixar-se ir pelas antipatias.

LULU

Antipatias não tenho.

ELISA

Alguém sobe.

LULU

Há de ser o primo.

ELISA

Ele! (sai)

Cena XI

PINHEIRO, LULU

LULU

Viva! Está mais calmo?

PINHEIRO

Calmo sempre, menos nas ocasiões em que és... indiscreta.

LULU

Indiscreta!

PINHEIRO

(continua...)

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