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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Sim, murmurou, sacudindo a cabeça; sim, eu vivo nos meus sonhos, e mentiria se dissesse que os não desejo... Desejo-os ardentemente; volto deles com a consciência aflita e dolorida, mas durante as longas horas do dia, nada mais faço que chamar pela noite, para poder correr aos braços de Alzira!... Será vida o sonho?... E por que não?... por que supor que esta é vida verdadeira e a outra não?... Por que, se ambas têm a mesma razão de ser? as mesmas dúvidas, as mesmas incertezas! ... Não são ambas um mistério?... Saberei por acaso o que eu era antes de nascer e o que serei depois da morte?... De onde vim?... Para onde vou?... Eis o mistério!... A vida, qualquer que ela seja, não será sempre um ligeiro sonho que se esvai entre dois nadas? Sair de um ventre de mulher, para entrar no ventre da terra! ... Eis tudo o que se sabe! ...

E começou a espacear pelo quarto, gesticulando.

— Sim! Qual das duas vidas será a verdadeira?... Qual das duas será mentira e sonho?... Poderei afirmar que existo nesta?...

E começou a apalpar as mãos, e a estorcer, uns contra os outros, seus dedos magros e pálidos.

— Este meu corpo será com efeito meu, e será com efeito um corpo?... Ele com efeito existirá?... Eu o estarei vendo, ou tudo isto será ilusão?... (E apertou com força, entre os dedos, a carne do seu braço.) Todos estes objetos que me cercam, existirão com efeito?... Sim! Eu os vejo! eu os apalpo! Eu os sinto com o meu tato!

Salomé, que entrara com a merenda, estacou a olhar para ele. desconsoladamente.

— Que estará o senhor vigário a fazer às voltas com aquela cadeira?...

resmungou ela, notando que Ângelo tinha uma cadeira erguida nas mãos e a examinava com suma atenção. Parece admirar uma raridade! . . — Sim, exclamou o pároco. Isto existe!

E arremessou a cadeira ao chão.

— Mau! mau! resmungou a criada. Hoje está para quebrar as cousas!...

E foi ter com ele. carinhosamente, depois de largar sobre a mesa a bandeja da merenda.

— Por que não trata de comer alguma cousa e recolher-se, senhor vigário?... Olhe que já são quase sete horas!...

Ângelo despertou:

— Sete horas? Já? Sim, sim, vou deitar-me! Preciso dormir! dormir muito!

— Mas há de primeiro tomar a sopinha de leite com pão! Vamos! venha para a mesa! (E conduziu-o até lá, puxando-o pelo braço). Assim! Agora beba um trago de vinho!

Ângelo obedecia, como uma criança, sem dizer palavra.

— Bem, disse a criada, quando viu que não conseguia fazê-lo comer mais nada. Agora pode recolher-se. Boa noite!

E saiu, soltando um fundo suspiro de lástima.

O presbítero continuou perdido nas suas cismas.

— Sonhar!... Sonhar!... Estarei eu sonhando agora, para daqui a pouco acordar nos braços de Alzira? ... não! mas isto existe!

E tomou de cima da mesa o canjirão de vinho.

— Tanto existe... prosseguiu ele. que eu posso quebrar este objeto! destruí-lo! (E despedaçou o canjirão contra a parede). Eu tenho um corpo que sente…tenho uma alma que dói! Ah! mas na outra vida palpita-me também o sangue dentro das veias! na outra vida a minha boca beija, os meus olhos choram, a minha carne treme de prazer e de dor! na outra vida governo os meus membros, dirijo os meus pensamentos, e piso a terra, e repiso o ar, e como, e bebo, e amo!

Nisto abriu-se surdamente a porta que dava para o interior da casa, e a veneranda figura do velho Ozéas desenhou-se contra a sombra.

Vinha abatido pela sua longa enfermidade; parecia mais velho e macilento. Afundaram-se-lhe de todo as faces e cavaram-se-lhe os olhos, onde transparecia agora, em vez do brilho místico que o iluminava dantes uma triste luz de mortal desesperança.

Imóvel, de braços cruzados sobre o peito, quedou-se a observar em silêncio o espectro do seu discípulo amado.

Ângelo que não dera por ele e continuava a monologar, gesticulando:

— Sim... sim... por que acreditar que esta miserável existência de cura de aldeia é a vida real, e a outra não? a outra que aliás é tão superior?... Sim! sim! Ou ambas são vida, ou são ambas sonho!... A única diferença é que lá eu vivo e gozo, ao passo que aqui... apenas choro o sofro... Ah! sonho por sonho, prefiro o outro! no outro sou feliz, sou livre, sou um homem como qualquer! não tenho senhor! não tenho Deus! Lá — eu amo — eu sou amado! Sim! sim! Prefiro a outra vida! Corramos aos braços de Alzira!

E encaminhou-se para o quarto com avidez.

Mas frei Ozéas, que lentamente se aproximara do discípulo, fê-lo estacar, interpondo-se-lhe na passagem.

— Oh! meu pai? ... exclamou o pároco.

— Ângelo! disse o frade, abrindo os braços, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas longas barbas brancas.

— Meu pai aqui!

— Sim! Venho em teu socorro, meu filho!

E Ângelo atirou-se-lhe nos braços, soluçando.

CAPÍTULO XIII

A confissão

Passado o abalo da primeira impressão, um constrangido silêncio fez entre Ângelo e Ozéas.

O presbítero tinha os olhos baixos, como um criminoso, e o outro acompanhava-lhe os menores movimentos, tremulando a cabeça.

— Sim, meu filho... disse o velho afinal, venho em teu socorro!... Dize-me como estás e dize-me o que sentes...

Ângelo não ergueu os olhos.

— Eu?... Nada!... tartamudeou. Creio que estou bom...

— E eu tenho a certeza do contrário, meu pobre Ângelo ...

(continua...)

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