Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Os jesuítas, os beneditinos e os carmelitas já haviam levantado as suas casas e hasteado as suas bandeiras na cidade fundada em 1567. Os franciscanos tinham-lhes cedido a dianteira como pobres e humildes que eram; chegara, porém, o tempo em que, por sua vez, deviam estes também aparecer na terra que escapara de ser francesa e calvinista.
A falange capucha, aliás, já estabelecida em diversos pontos do Brasil, enviou de Pernambuco para o Rio de Janeiro, em vez de uma expedição imponente, uma simples patrulha composta de dois frades, Antônio das Chagas e Antônio dos Mártires, que chegaram a 22 de outubro de 1606, e aproveitando-se da doação feita da ermida de Santa Luzia para aí se fundar a residência dos franciscanos, tomaram conta dessa capela e, no ano seguinte, receberam nela o custódio da casa prin cipal da Bahia e alguns outros de seus irmãos.
Não há quem mais vezes mude de residência do que a gente pobre. A pobreza arranja-se perfeitamente em qualquer cantinho. Mas não é qualquer cantinho que se arranja com a pobreza. Esta desconsoladora regra foi experimentada no Rio de Janeiro pelos franciscanos, que andaram durante um ano de um para outro lado, a procurar uma casa em que permanentemente se estabelecessem.
A ermida de Santa Luzia foi desde logo abandonada. Por quê? O custódio pretextou que não achava nem suficientes os cômodos do hospício, nem favorável a sua situação. Mas onde quer que fosse, teria da mandar construir um convento, como também ali o poderia fazer, e situação mais aprazível do que a da ermida de Santa Luzia dificilmente chegaria a encontrar.
Parece que o prelado dos franciscanos já naquele tempo conhecia a gíria política dos nossos estadistas de hoje, que quase sempre explicam as suas retiradas dos ministérios por cansaço ou moléstia, ainda que se achem de perfeita saúde e capazes de trabalhar vinte e cinco horas por dia na vinha da pátria. O cansaço e a moléstia são em tal caso os densos véus com que se encobrem verdades e fatos inconvenientes que a prudência ou o pejo mandam calar. Fr. Leonardo de Jesus, o prelado dos franciscanos, fez em 1607 o que fazem hoje os nossos estadistas, e inventou dois pretextos para esconder uma triste realidade.
Asseveram alguns que os jesuítas, cujo colégio estava situado no monte do Castelo, não viram com bons olhos a vizinhança dos capuchos. E como entre os frades das diversas ordens os ciúmes são mil vezes piores do que entre as moças, sobrevieram desgostos e desinteligências tão fortes, que os recém-chegados preferiram deixar a ermida de Santa Luzia a ficarem ali tão perto, expostos à má vontade daqueles reis da montanha.
Não vos devem admirar essas lutas e oposições a separarem religiosos que deviam pregar e seguir a mesma doutrina. Também a quase totalidade dos nossos homens políticos combate, briga e desatina, bem que um único pensamento esteja no espírito de quase todos, e uma única ambição os devore. Tanto nos frades como nos políticos, a questão é de exclusivismo; uns contendem pelo privilégio no serviço de
Deus, os outros pelo privilégio no serviço da pátria, excesso de virtude em ambos os casos.
Desculpem-me, se abundo demais nestas comparações dos frades com os nossos políticos. Acho tantos pontos de analogia entre uns e outros, que não posso resistir à tentação de fazê-los notar.
Abandonando a ermida de Santa Luzia, os franciscanos foram dar consigo na casa da Misericórdia. Mas, logo depois, passaram-se para a ermida de N. S. da Ajuda, que então existia no princípio da rua que depois se chamou dos Barbonos, e exatamente no ângulo que ali forma a cerca do convento das freiras.
Mais tarde, em passeios que ainda teremos de dar, contar-vos-ei a história dessa ermida, bem como da de Santa Luzia e da Misericórdia. Agora convém não esquecer os franciscanos, que já se acham em terceira residência.
O governador e a câmara do Rio de Janeiro correram em auxílio dos pobres capuchos; e visto que os carmelitas não se haviam aproveitado do monte que se reservara para eles, e que por isso se chamava do Carmo, por escritura de 9 de abril de 1607, fizeram aos franciscanos doação desse morro, que em breve tomou o nome de Santo Antônio, e que ficou sendo desses frades, e ao mesmo tempo deles não sendo.
Não protesteis contra este esse et non esse. Aqui tendes a sua explicação nas seguintes palavras da escritura da sua doação:
“Que os religiosos de S. Francisco haviam elegido o sítio e
lugar que se acha no outeiro do Carmo defronte da vargem abaixo de N. S. e
sobre a lagoa de S. Antônio; e porque os mesmos religiosos não eram pelo seu
instituto capazes de propriedade e domínio, se fazia esta doação ao papa e à
igreja romana, etc.”
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.